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DIA 1

Click.

–25 de fevereiro, sessão número dois de Bruce Wayne. Olá, Bruce, boa tarde.

–Boa tarde, doutora.

–Como você está hoje?

–Estou bem. Tudo como deveria estar.

–Ótimo. Conseguiu fazer o exercício que propus na última sessão?

–Sim, perfeitamente.

–Pode me dizer o que lhe propus?

–Você me propôs fazer uma retrospectiva do que me trouxe até aqui, traçando até a primeira causa que eu conseguisse encontrar.

–Exato. E o que você conseguiu encontrar?

–Eu anotei, está aqui. Só um instante.

Pausa.

–Achei. “Álcool”.

–Perdão?

–Álcool.

Pausa.

–Como assim?

–Eu bebi champanha demais na festa de inauguração da nova ala Expressionista do Museu de Belas-Artes de Gotham, a qual eu ajudei… Bem, eu basicamente construí – não com minhas próprias mãos, claro, mas com cada um dos vários centavos gastos na construção e nas aquisições e empréstimos em exibição. Inclusive o Dossena que estava lá era da minha coleção própria.

–Bruce…

–De qualquer forma, acabei bebendo um pouco além da conta, e acabei me envolvendo em uma briga, durante a qual eu acabei por destruir acidentalmente alguns quadros. Então, por eu ter estragado os quadros que eu comprei, eu fui “condenado” a reembolsar o valor do quadro, fazer serviço comunitário e estar aqui com você duas vezes por semana.

–A escolha pelo local foi sua, Bruce.

–Me pareceu apropriado.

Pausa.

–E sua resposta foi “álcool”.

–Correto.

–Você tentou ir além?

–Como assim “além”? Algo como “cana de açúcar”?

–Qual é a razão pela qual você bebe, Bruce?

–Como assim? Que pergunta mais abstrata. Qual é a razão pela qual qualquer pessoa bebe?

–Diga-me você.

Pausa.

–Não sei, para se sentir mais solto? Desinibir-se um pouco?

–Você se sente inibido?

–Eu tenho muitos defeitos, Doutora Kerman, mas inibição nunca foi um deles.

–Você vê inibição como um defeito?

–Na minha área de expertise, sim.

–E qual é a sua área de expertise?

–De acordo com os jornais e os tabloides, “ser playboy”.

–E de acordo com você?

–Ser visto.

Pausa.

–Não precisa escrever isso. É só ler a coluna de fofocas de qualquer jornal.

–Por que você considera tanto o que os jornais escrevem sobre você? Você não acha que você é muito mais do que uma coluna de fofocas?

–Ah, acho.

–É?

–Ah, sim. Muito mais. Eu sou um símbolo.

–De quê?

Pausa. Tosse.

–Poder.

–Através do dinheiro?

Através do temor.

–Mas é claro, doutora – riso baixo. – O que mais seria?

batlogo150

Mansão Wayne, 19hrs.

O luxuoso carro deu a volta no gigantesco chafariz que se erguia no centro da parte frontal do jardim da Mansão Wayne, verdejante e vistoso como sempre estivera sob os cuidados da família Pennyworth. Bruce enveredou seu veículo até a entrada da casa, saindo do veículo para encarar o dia com certa dificuldade. Por algum motivo, sair durante o dia parecia estranho, errado. Percebeu que já fazia algum tempo que não saía de casa com o sol brilhando, mas nada que parecesse estranho para a imprensa ou qualquer observador casual – ainda mais após o vexame do Museu de Belas-Artes. Qualquer socialite que prezasse sua imagem iria se afastar dos holofotes por um tempo depois de uma cena como aquela – logo após doar mais algumas centenas de milhares de dólares para a caridade.

–Alfred? – Chamou Bruce logo após atravessar o portal da Mansão.

–Olá, Patrão Bruce – Respondeu Alfred em seu habitual terno, liso e limpo como no dia que comprara. – Como foi seu dia?

Bruce olhou para o sorriso simpático de seu criado, que se tornara seu pai adotivo após o assassinato de seus pais, e não conseguiu afastar de sua mente a percepção de que, apesar de sua vivacidade e sagacidade, Alfred estava ficando velho. Sua pele estava enrugada, e suas costas, apesar da postura e condição física exemplares, começavam a envergar sob o peso dos anos. Começou a ser tomado pela sensação de que, independente de quanto lutasse contra o crime e seus agentes, nunca poderia salvar todos. De uma forma ou de outra, com ou sem Joe Chill, todos partiriam.

–Foi como sempre, Alfred, obrigado – Bruce retirou seu casaco e o pendurou no cabide ao lado da porta. – Os diretores executivos da Wayne Mining estão insistindo em investir numa nova planta de minério de ferro em Blüdhaven, mesmo depois de todos os laudos de segurança do lugar terem sido reprovados.

–Mas a prospecção não seria no parque anexo ao que já funciona?

–Sim, e é o que todos apontaram. Acho que McGallows pagou propina para algum fiscal para manter a planta que já temos aberta. Pedi para Fox verificar isso mais a fundo. De qualquer forma, tive que me indispor com mais da metade da diretoria para barrar o negócio.

–E porque tantos foram a favor de um projeto obviamente falho em seus desígnios?

–Não sei – retrucou Bruce, com ares de ironia. – Mas Fox apontou a feliz coincidência de McGallows ter comprado, há alguns meses, a empreiteira que a diretoria indicou para o projeto.

–Com todo respeito, patrão, não acha que eles já ficaram lá por tempo o suficiente?

–Com certeza, Alfred. Tempo demais. – concordou Bruce enquanto subia as escadas. – Por isso mesmo que pedi ao Fox um dossiê completo de todos os membros da diretoria executiva da Wayne Mining, e algumas ideias do que poderíamos fazer com eles.

–Lucius deve ter apreciado muito a ideia.

Bruce sorriu.

–Talvez um pouco mais do que o necessário. O jantar já está pronto?

–Sim, Christine fez pato ao molho de vinho branco.

–Ótimo, pode me servir na Caverna, por favor? Vou dar uma olhada em como estão as coisas.

–A ronda começará mais cedo hoje, patrão? – Chamou Alfred, já distante.

–A ronda nunca acaba, Alfred.

Ainda assim, enquanto subia as escadas rumo à sala de leitura principal, Bruce voltou a pensar em como os últimos dias em Gotham estavam relativamente calmos. A paz só era quebrada por crimes esporádicos, os quais a Polícia de Gotham resolvia com facilidade, sem necessidade do Batman ser envolvido. A última vez que Gordon lhe pedira ajuda fora quando o Pinguim tentara montar uma organização, que o jornal chamara de Sindicato do Crime. A famiglia não se sentira confortável com isso, e uma guerra de gangues logo se insinuou. O Batsinal brilhara no céu, e Gordon pedira que o Batman retirasse o Pinguim de circulação antes que a batalha realmente se iniciasse, e assim foi feito.

Isso fora há meses. O canhão de luz de Gordon não havia acendido desde então.

Enquanto mexia no relógio ancestral na sala de estudos para que este marcasse “22:48”, Bruce cogitava se tudo estava calmo demais, ou se era somente sua inquietude falando. A passagem para a Caverna se abriu e Bruce desceu as escadas com destreza, indo para a ilha de computadores no centro do vão central. Deu o comando de voz, e as telas se acenderam. Em uma das telas à esquerda, uma emissora exibia os resultados do futebol, enquanto outra propagandeava o crescimento do mercado imobiliário em toda a região. Contudo, o que chamou a atenção de Bruce foi a tela da Gotham News, que mostrava pessoas com placas com o texto “Justiça Real”, bradando coisas ininteligíveis.

–Tela 12 – comandou Bruce. A imagem da tela 12 se expandiu para todas as telas no momento em que um homem bem apessoado e de terno bem cortado falava ao microfone para o grupo. A legenda da notícia dizia “Movimento ‘Justiça Real’ faz sua primeira passeata no centro de Gotham”, e a edição permitiu que Bruce ouvisse o que o homem dizia.

–Não podemos permitir que isso prossiga! Os Estados Unidos, como uma nação a favor dos Direitos Humanos, não pode deixar que os direitos mais básicos das pessoas sejam quebrados. O Departamento de Polícia de Gotham City, assim como figuras nebulosas como o Batman, são conhecidos por perpetrarem atos de prisão sem julgamento, e muitas vezes até mesmo assassinatos – o homem, que a legenda identificou como Lonnie Machin, fez uma curta pausa. – Se não acreditam em mim, em seis dias serão completos sete anos da morte do homem conhecido por “Coringa” pelas mãos do Batman, o qual é chamado de heroi.

Bruce sentou-se. Sete anos, pensou. Parece que foi há sete horas.

Na tela ampliada, Bruce viu, não pela primeira vez, a fita da câmera de segurança da Behringer Chemicals, datada de quase sete anos atrás.

“Do químico viestes, para o químico voltarás!”

No meio de uma névoa espessa, era reconhecível o vulto negro encapuzado que se digladiava com uma figura esguia alta, que escapava e aparava os golpes com agilidade.

–Criminoso ou não – prosseguia a voz de Machin por sobre o vídeo -, este homem foi executado pelo Batman, sem direito a julgamento pelos crimes; crimes esses, vale ressaltar, que nunca foram provados.

O vídeo terminava com a figura alta cabeceando o Batman com força enquanto o segurava pelos ombros; o Batman, então, se desvencilhou de seu adversário, empurrando-o.

O homem caía em um tanque de ácido atrás de si.

O vídeo ainda mostrava o Batman tentando alcançar o homem e salvá-lo de seu destino sem sucesso.

“Do químico viestes, para o químico voltarás!”

–Isto é uma execução sumária, violadora do direito básico do ser humano à vida e desta não lhe ser retirada arbitrariamente – a tela mostrava novamente Machin, seu rosto retesado e tenso. – Precisamos acabar com isso. Sete dias para os sete anos. É uma data simbólica, profética, relacionável à perfeição. Gotham tem tido paz, mas a que preço? Somente teremos a paz perfeita quando tivermos a justiça real.

–Múltiplas – murmurou Bruce, e as imagens se multiplicaram novamente. Bruce, entretanto, só via uma imagem em sua frente.

Um rosto branco, rasgado por um sorriso lunático, gargalhando enquanto caía para trás, para dentro de uma escuridão que precedia o ácido.

“Do químico viestes, para o químico voltarás!”

–Você não o executou, Patrão Bruce.

A voz de Alfred o despertou de seu devaneio.

–O senhor não o eliminou propositalmente. O Destino assim o quis, e fez de suas mãos instrumentos de Sua vontade cármica.

–De propósito ou não, eu o matei, Alfred.

–De fato – Alfred assentiu, colocando a bandeja com a refeição ao lado de Bruce. – De fato, você o eliminou. E não há nada que você, Lonnie Machin ou qualquer outro possa fazer para mudar isso. Tanto eu quanto o senhor sabemos como seria melhor que Gotham tivesse sua “justiça real”, mas ambos também sabemos o quão distante da realidade este projeto é.

Bruce o encarou, em silêncio.

– Se a cidade acha que o Batman é o veneno que corre nas veias da cidade, Patrão Bruce – prosseguiu Alfred -, é porque eles não experimentaram da falta dele. Só se acha o antídoto amargo quando não se conhece o veneno.

Bruce sustentou o olhar de Alfred por alguns instantes antes de se virar para a bandeja.

–Obrigado por ter trazido o jantar para mim, Alfred.

–Por nada, Patrão Bruce. Somente mais uma coisa antes de eu me retirar, se o senhor me permite – Alfred mexeu no bolso de seu uniforme, de onde tirou uma pequena caixa. – Foi deixado hoje de manhã para o senhor.

Bruce pegou a pequena caixa com cuidado, revirando-a.

–Como estava em nome de “Bruce Wayne” e não tinha remetente, tomei a liberdade de passar a caixa pelo raio-X.

–E?

–Não consegui identificar o que há dentro, mas não me pareceu nada incomum.

Em um movimento rápido, Bruce rasgou o embrulho.

A caixa era toda de vidro, e pequenas e finas estruturas tubulares amareladas corriam por toda a sua extensão nas laterais e em direção ao centro, onde uma lâmina continha um filete de sangue no formato de um ponto de interrogação estilizado.

–É, Alfred – comentou Bruce, com tensão na voz. – Parece que alguém voltou do inferno.

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Robinson Park, 21hrs.

–Merda de carro de merda. Eu sabia que não devia ter comprado aquela lata velha. Culpa do Malcolm. Ele tinha que se livrar daquela porcaria, me empurrou o treco goela abaixo e eu aceitei. Cunhado ou não, eu o mato quando eu o encontrar.

O sapato de couro barato rangia enquanto ele atravessava o Parque Robinson pela parte pavimentada usada pelas pessoas que iam caminhar ali. O lugar estava bem iluminado, porém ainda assim deserto; ninguém se aventurava em um parque em Gotham City àquela hora da noite, independente de quão seguras as pessoas se sentissem na cidade.

Mas seu carro quebrara ali perto e seu celular acabara a bateria, e não havia mais nada na região a não ser o Reservatório de Gotham. Ele, então, foi obrigado a deixar o carro na estrada e ir até o centro a pé.

E, para coroar, começara a chover.

–Desgraçado, eu vou acabar com…

Seu raciocínio foi interrompido por um som seco ao seu lado, como se fosse um galho quebrando.

Ele se sobressaltou e, após olhar em volta nervosamente, apressou o passo. Viu que, a 300 metros aproximadamente, estava o túnel sob o rio Finger que ligava o parque ao centro. Acelerou ainda mais, esperançoso por encontrar abrigo da chuva e ajuda.

Durante sua caminhada, pensou ter ouvido passos duplicados, como se mais alguém estivesse andando com ele. Preferiu não dar atenção, focando toda a sua energia em alcançar o túnel.

Os passos, entretanto, se tornaram mais rápidos, mais fortes, mais próximos. Antes que se apercebesse, já estava correndo desabaladamente em direção à boca negra do túnel que se abria a sua frente, cobrindo a cabeça com sua pasta.

Por mais que tentasse, ele não conseguia ignorar o fato de que os passos estavam próximos. Próximos demais.

Apesar do pânico que se assomava em si, ele alcançou o túnel, se deixando respirar com mais tranquilidade.

E ouviu o passo exatamente atrás de si.

Ele se virou repentinamente, apenas para encontrar a chuva caindo ruidosamente sobre o parque em uma noite escura.

Ele suspirou, pensando o quanto ele era bobo por se deixar levar daquela forma. Ele então se virou para sair pelo outro lado do túnel, e uma faca atravessou seu peito.

Sua vista se arregalou de terror enquanto olhava fundo nos olhos do homem à sua frente. Seu rosto era largo, marcado por dezenas de curtas cicatrizes verticais, mas o pior eram seus olhos.

Eram olhos profundos, mais negros do que a noite mortal tempestuosa que chorava lá fora, enquanto ele mesmo engasgava com seu próprio sangue. O homem que o assassinava afundou a faca em seu peito, fazendo-a rasgá-lo por dentro. Enquanto o sangue escorria, ele mergulhou na escuridão nos olhos do homem, e a escuridão o tomou por completo, e ele e a escuridão eram um só.

O homem puxou a faca de dentro do rapaz, deixando o corpo cair com um baque surdo. Vendo que sua vítima estava realmente morta, ele tirou um espelho de seu bolso, mirando seu próprio rosto. Com a ponta da sua faca, ainda pingando de sangue, ele fez um curto talho vertical em seu rosto.

Após ver o filete escuro escorrer pelo seu rosto, o homem limpou sua faca nas roupas de sua vítima e, sorrindo, deixou o túnel, em direção às trevas.

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