Dia 3 – Parte 1

Click.

–6 de março, quinta sessão de Bruce Wayne. Olá, Bruce, boa tarde.

–Muito boa tarde, doutora.

–Como você está hoje?

–Sonolento.

–Dormiu mal esta noite?

–Não dormi.

–Aconteceu algo?

–Sim. Um novo clube noturno perto da Torre do Relógio. O nome é “Fim dos Tempos”. Ótimo lugar.

–Entendo. Você se incomodaria de tirar os óculos?

–Seria realmente necessário? Eu gostaria muito de mantê-los.

–Seria interessante para nosso avanço, Bruce.

Pausa.

–Obrigada. Como foi a sua tarefa do nosso último encontro?

–Foi feita.

–Bem feita?

–Suficientemente feita.

–Compreendo. Pode lembrar qual era a pergunta, e a qual conclusão você chegou?

–“Com qual dos meus ancestrais eu mais me identifico”.

–E qual foi?

–Charles Arwin Wayne…

–O que fez riqueza com a venda de imóveis?

–…Junior. O pai dele fez riqueza com a venda de imóveis. Charles Arwin Wayne Junior foi um rapaz que tinha como objetivo gastar todo o dinheiro que seus ancestrais tinham juntado até ali, aproveitando tudo o que a vida no fim do século XIX tinha de melhor. E também tentou criar uma empresa chamada Wayne Railroads para implementar uma malha ferroviária que ligaria a os parques de mineração de Gotham e Blüdhaven até as fábricas de Metrópolis.

–E por que você se acha semelhante a ele?

–Você está me vendo às voltas com algum projeto de ferrovia?

Pausa.

–E qual era o seu grau de identificação com seu pai?

–Meu pai?

–Sim.

–O que meu pai tem a ver com qualquer coisa?

–Bem, estamos falando sobre você, e ele é seu pai.

Pausa.

–Meu pai foi um grande homem. Todos achavam que meu avô tinha feito muito por Gotham, mas meu pai elevou o nível. Afinal de contas, é difícil competir com um cirurgião que operava de graça para os desafortunados e ainda doou milhões de dólares para mais de cem obras filantrópicas.

–Você se sente competindo com seu pai?

–Eu não disse isso.

–Você disse que é difícil competir com ele.

–Me referia à família Wayne como um todo.

–Você é da família Wayne, Bruce.

Pausa.

–O que você, como um membro da família Wayne, sente ao olhar para o legado de seu pai?

Pausa.

–Já te falei sobre o clube noturno que abriu perto da Torre do Relógio? É ótimo, se chama “Fim dos Tempos”…

batlogo150

Departamento de Polícia de Gotham City, 00hrs.

James Gordon olhava para o horizonte enevoado de Gotham City do topo do prédio do Departamento de Polícia. Fumava pacientemente, ouvindo o som das sirenes e dos carros que se movimentavam dezenas de metros abaixo. Seu espesso bigode e grossa armação de óculos, quando somados ao cigarro, lhe concediam uma aparência séria e rígida – que era completamente correta. Quando o cigarro começou a queimar o filtro, ele o apagou no parapeito e imediatamente sacou outro do bolso de sua camisa.

–Isso ainda vai te matar. – Disse uma voz rouca atrás dele. Gordon soltou um curto riso amargo.

–Quem mora em Gotham City reza para ser velho o suficiente para morrer por ser fumante. Ainda mais sendo policial.

–Vou rezar por sua sorte, então.

–Por que demorou tanto?

–Passei no necrotério para analisar o corpo e pelo túnel sob o Rio Finger para ver se encontrava algum resquício de pista.

–Perdeu seu tempo. – Retrucou Gordon, acendendo o novo cigarro e virando-se para a sombra agachada no parapeito. Não era a primeira vez que Gordon notava o quanto Batman parecia uma gárgula, assustadora e estática, vigiando com ferocidade o lugar que fora feito para proteger – Fomos avisados ontem pela manhã do corpo, mas a chuva da noite anterior não deixou muitos vestígios. Esgotamos as possibilidades de investigação antes de eu lhe chamar.

–Quem era o homem?

– Era um advogado chave de cadeia qualquer. – Gordon tinha um arquivo nas mãos, e o folheava enquanto descrevia o homem – Morava perto das imediações do One Gotham Center, tinha uma esposa, sem filhos, aparentemente sem envolvimento com nenhum grupo criminoso… O nome dele era… Bruce Vessels.

Batman desceu do parapeito em um movimento único e fluido. Um vento frio soprou, fazendo Gordon encolher-se dentro do casaco.

–Entendo. Suspeitos?

Gordon deu de ombros.

–Reúna os suspeitos de sempre. Algum membro da Intergang, ou da Five Fingers, ou talvez um assaltante qualquer que ficou irritado quando o homem reagiu… Não há nenhum traço que nos leve a lugar algum. E é por isso que eu te chamei.

Batman ergueu os olhos, mirando o horizonte.

–Não houve nenhuma fuga do Arkham recentemente.

–Não.

–Não foi uma pergunta. – Retrucou Batman com um meio sorriso. Gordon riu curtamente e voltou a se dedicar ao seu cigarro. – Podemos descartar alguns dos suspeitos de sempre. Se não tinha nenhum interesse de gangue envolvido, as chances apontam para um latrocínio.

–Eu sei. O negócio é que… – Gordon deixou a frase esmorecer.

–Você sente que há algo estranho.

O comissário encarou Batman com olhos pesados de experiência.

–Eu poderia apostar minha cabeça que sim.

Batman assentiu.

–Eu vou verificar.

Gordon concordou com a cabeça, vagarosamente. Batman se virou, pronto para sair.

–Até quando?

Batman estacou virando-se para Gordon.

–Isso. – O comissário disse, acenando profusamente – Até quando faremos isso?

–Enquanto Gotham precisar.

Gordon balançou a cabeça.

–Meu cabelo ainda tinha cor quando eu comecei nisso. – Ele voltou-se para seu terceiro cigarro, e sua mente já não estava mais ali – Completo uma década como comissário ano que vem. Perdi a juventude da minha filha… Já é uma moça, decidiu que quer ser ginasta.

Gordon soprou outro anel de fumaça em meio a um riso contido. Seu peito apertou, de nostalgia, de saudades da época em que o mundo seria eternamente um laboratório, e que cada decisão seria somente mais um experimento, sem maiores consequências, mas infinitamente ricos em experiência.

O anel de fumaça se dissipou na noite fria de Gotham.

–E há quanto tempo você faz…?

Gordon olhou em volta, apenas para se encontrar sozinho no terraço.

batlogo150

A Caverna, 3hrs

A mente de Bruce funcionava aceleradamente enquanto descia de seu veículo, caçoado por Alfred que o chamava de “Batmóvel”, e retirava seu uniforme nas entranhas do solo, em sua Caverna, após a ronda noturna.

Depois de tantos meses de relativa paz, as coisas entravam em ebulição novamente. Este homem morrera, e seu nome era “Bruce”; isso poderia ser apenas coincidência, se fosse um caso isolado. Bruce Wayne, entretanto, olhava naquele exato momento um indício de que aquilo não era um caso isolado.

O globo ainda estava no mesmo lugar que deixara, aberto após Bruce ter sussurrado “Batman” no microfone do objeto. O globo fora enviado para sua casa, em nome de Bruce Wayne, e só havia uma explicação plausível para o vidro abrir ao nome de seu alterego.

Alguém sabia quem ele era.

O que levava a próxima pergunta óbvia: quem?

O Coringa estava morto; o Charada não sabia nem mesmo do que se tratava o globo; o Pinguim, se soubesse, já teria exposto o segredo à mídia. Seria aquilo alguma espécie de chantagem?

Fosse o que fosse, provavelmente a lâmina de sangue ajudaria a chegar a uma conclusão mais sólida.

Alfred já havia retirado uma amostra do DNA, submetendo às análises de reconhecimento.

–Algum progresso?

–Ora, Patrão Bruce, o senhor abriu o globo – respondeu Alfred, enquanto olhava o computador pesquisando os resultados possíveis na base de dados da Interpol, da CIA, da “extinta” KGB e, de forma mais local, na própria DPGC. – Já estamos bem além de onde estávamos ontem.

Bruce não respondeu, reflexivo.

–Um homem chamado Bruce foi assassinado anteontem no túnel sobre o Finger.

Alfred se virou para Bruce, olhando-o de soslaio com a sobrancelha erguida.

–O senhor encontrou algo mais a respeito dele?

Bruce balançou a cabeça, frustrado.

–Nada útil, Alfred.

–Considerando este globo e esta nova informação, Patrão Bruce – os olhos de Alfred tremiam de concentração e cautela -, creio que estejam lhe cercando.

–Eu sei – respondeu Bruce, massageando as têmporas. – Mas não há nada mais que eu possa fazer hoje, Alfred. Eu vou me deitar.

–Claro, patrão. Bom dia para o senhor.

Bruce sorriu.

–E você? Não vai dormir?

Foi a vez de Alfred mostrar seus dentes perfilados.

–A ronda nunca acaba, patrão.

Bruce assentiu mas, após três dias sem dormir, a ronda precisava acabar.

Já no seu quarto, empunhando um copo d’água, Bruce analisava o Dercaloxes. Decidido, engoliu duas pílulas e, rapidamente, sentiu uma sensação de torpor tomar o seu corpo, desligando-o lentamente, enquanto a exaustão o tomava por completo ao som de asas de morcego batendo ao longe.

Os solados das botas batiam com firmeza no solo de concreto enquanto ele corria. Sua capa esvoaçava atrás de si, um manto negro ondulando com sua velocidade. Enquanto ele disparava agilmente, nem todos tinham coragem de ficar e enfrentá-lo.

A maioria ainda temia o Batman.

Alguns, entretanto, ficavam em seu caminho, fosse por teimosia, despeito ou ignorância. Alguns até portavam armas de fogo, disparando inutilmente contra o Morcego; outros haviam aderido à crença popular de que o Batman só poderia ser ferido por lâminas, e se aventuravam a enfrentá-lo com facas e navalhas.

Independente da arma que usavam, eles caíam.

Um homem armado com um cutelo saiu de um grande tanque de metal ao lado dele, mirando seu pescoço. Batman não desviou de seu caminho nem diminuiu seu ritmo; apenas agachou-se, de forma que a lâmina passou acima de sua cabeça, enquanto agarrou a camisa do homem, arremessando-o em direção do próximo tanque de metal. O homem atingiu o equipamento com um baque metálico e caiu desacordado, e outros dois vinham em sua direção com lança-chamas cuspindo fogo.

Batman se cobriu com sua própria capa, que o protegeu das chamas, ainda se mantendo em rota de colisão com os atacantes. Quando estava próximo o suficiente, largou a capa, esticando os braços e atingindo os dois homens em cheio no meio de seus rostos, nocauteando-os.

Mais três homens surgiram com metralhadoras, disparando alucinadamente. Batman cruzou o caminho deles e mergulhou nas sombras. Eles permaneceram atirando por alguns instantes, incertos do que fazer.

Silêncio se estabeleceu por alguns instantes, até um deles perceber uma sombra se assomando por trás deles.

O primeiro foi derrubado com um chute nas costas, o segundo foi desarmado e derrubado com um rápido e potente cruzado, e o terceiro disparou poucas balas antes da sombra do morcego engolfá-lo.

Batman não perdeu tempo procurando mais adversários; viu um feixe de luz dançando logo à frente e imediatamente soube para onde ir.

Quando finalmente alcançou o lugar, parou abruptamente. Uma névoa espessa subia do chão, impedindo a visão. Não parecia ser a evaporação de nenhum gás nocivo, porém ainda era um obstáculo.

Então uma sucessão de pensamentos rápidos lhe veio; aquela névoa nada fazia a não ser lhe turvar a visão, e se concentrava somente ali.

Era uma armadilha.

Batman se virou bem em tempo de aparar um golpe de algo que parecia ser uma enorme chave inglesa. Antes que pudesse contra-atacar, nada mais havia ali.

–Você me parece muito sério hoje, Morceguinho – pela acústica, Batman percebeu que o lugar era arredondado; era impossível identificar a fonte do som devido à reverberação. – Quer ouvir uma piada para descontrair?

Ouviu um silvo, porém não conseguiu defender o golpe desta vez. Uma gigantesca chave inglesa atingiu a lateral de seu corpo, e Batman sentiu algumas costelas trincando com o impacto.

–Quer? Ótimo! Vou lhe fazer esse favor então. Pare-me se você já escutou esta antes.

Novamente o silvo, e Batman se antecipou, saltando para trás. Ainda assim, a ponta da chave inglesa lhe atingiu o queixo, fazendo-o desequilibrar e ir ao chão.

–Um vampiro entra em um bar, cheio de executivos depois do trabalho, com sua vestimenta clássica e pede por uma cerveja – a chave inglesa rasgava o ar enquanto era manipulada com brutalidade. – Do lado dele, ele ouve risinhos. Quando ele se vira para encarar a fonte, ele vê que é um palhaço, porém um palhaço vestido com um elegante terno preto. De qualquer forma, o vampiro pensa “Um palhaço?” – Mesmo sob a névoa, Batman conseguiu ver um fraco brilho do metal enquanto a chave inglesa descia em golpes sucessivos – “Um. Maldito. PALHAÇO?!” – Batman ouviu o metal ressoando a centímetros de sua cabeça no último golpe e se pôs de pé em um salto, indo para longe da fonte dos golpes. Houve silêncio por alguns instantes antes da voz prosseguir. – Bem, o vampiro não conseguiu manter a compostura – Batman conseguiu novamente ver o brilho fraco do metal; a luz de segurança do local reluzia levemente na superfície do objeto, mesmo em meio àquela névoa. – Ele logo se vira para o palhaço, enfurecido, e diz: “Ei, você está rindo de mim?”, ao que o palhaço responde: “Mas é claro!”. – Batman se deslocou para a esquerda, finalmente conseguindo ver o contorno de seu adversário na penumbra. – “Mas você é um palhaço!”, ruge o vampiro – Batman disparou agilmente na direção dele, mantendo a capa rígida para que ela não fizesse barulho algum – O palhaço somente ri e retruca: “Pelo menos eu estou vestido de acordo com a ocasião!” HaHaHaHaHa!

A risada do Coringa foi sufocada quando Batman atingiu seu plexo solar com o ombro. A chave de fenda caiu com um estrondo violento enquanto os dois inimigos rolavam no chão, desferindo socos e chutes. O Coringa gargalhava de maneira ensandecida quando se esgueirou para trás e, pondo os dois pés no peito de Batman, lançou-o para trás.

Pondo-se de pé em um salto e aproveitando-se do momentâneo desequilíbrio de Batman, Coringa agarrou-o pelos ombros, cabeceando-lhe com força, enquanto uma gargalhada doentia borbulhava em sua garganta.

Batman agilmente escapou do agarro de Coringa, abrindo os braços abruptamente, e o empurrou para lançá-lo ao chão.

Porém, em meio à neblina, Batman não notou que, atrás do Coringa, não havia chão.

À beira do enorme tanque, que escondia seus conteúdos com capricho entre névoas, sombras e uma tela negra, Batman agarrou Coringa pelo colarinho impedindo que esse caísse.

O Coringa, por outro lado, somente ria.

Sua risada era alta, aguda, doentia, imbuída de um desespero letal, permeada pela própria morte – ou seria desejo de matar? A risada ecoava nas paredes, nos ouvidos e sob a pele de Batman.

–Não se preocupe, Morceguinho – a voz do Coringa era nada mais que um murmúrio demoníaco no escuro. – Do químico viestes, para o químico voltarás.

Com isto o Coringa tocou a flor de sua lapela, de onde emergiu um líquido corrosivo. Com o ácido queimando e devorando seu braço, Batman soltou um rugido de dor.

E sua mão soltou-se.

O Coringa caiu na escuridão, com suas risadas ecoando através da própria vida, seguido por um baque seco, e um mergulho molhado, macabramente obsceno.

Batman se quedou ali, segurando seu braço que parecia estar em chamas, olhando para o tanque na sua frente.

E a voz do Coringa ecoava.

E ecoava.

O químico, Batman. Para o químico voltarás.

Uma mão subia do ácido, branca como leite, a pele derretendo em gotas repulsivas, os ossos amarelados e apodrecidos.

Para o químico.

Batman tentava fugir dos dedos que se alongavam e o circundavam, mas eles eram mais rápidos.

Ouroboros, Batman.

As mãos o agarravam e, em um solavanco violento, o jogavam ao chão – e o puxavam para dentro do tanque.

Para o químico! HaHaHaHaHaHaHa!

A mão pressionou seu ombro, e Bruce acordou agarrando a mão com força, apenas para ver Alfred encarando-o com sua calma eterna.

Mansão Wayne, 4hrs

–O mesmo pesadelo, Patrão Bruce? – Wayne somente assentiu. – Sinto muito perturbá-lo de qualquer forma, mas o Sinal está ligado nos céus.

Gordon.

–Obrigado, Alfred – respondeu Bruce, pondo-se de pé em um salto. Imediatamente sentiu o chão rodando, e todas as paredes pareciam estar em movimento. Wayne apoiou-se na cama para não cair.

–Está tudo bem, patrão? – Alfred o segurava pelo braço, seu rosto transparecendo temor.

–Só levantei rápido demais, não se preocupe – retrucou Bruce, já se recompondo – Por favor, prepare o veículo. Estarei na Caverna em cinco minutos.

Bruce somente se deu ao luxo de jogar água gelada no rosto, para apurar os sentidos, antes de atravessar rapidamente pela passagem no fundo falso do armário de seu quarto para a Caverna e vestir o uniforme. Alfred já estava no computador, acessando as principais câmeras de segurança de Gotham.

–Encontrou algo?

–Não, patrão – o mordomo respondeu sem nem mesmo tirar os olhos da tela. – As câmeras do centro da cidade e as principais imagens da periferia não mostram nada que explique o Sinal.

–Faça um scan geral com o satélite de toda a Gotham e depois me passe a situação – Bruce já entrava no Batmóvel quando cogitou outra possibilidade. – Temos alguma câmera nas imediações do rio Finger?

–Não, senhor.

–Então me dê um scan preciso da área, principalmente sob a ponte. E providencie algumas câmeras lá assim que possível.

–Algum motivo especial?

–Tivemos uma morte lá esta semana – Bruce esfregou os olhos, tentando limpar a vista embaçada enquanto saía da Caverna, antes de murmurar para si mesmo. – E creio que acabamos de ter a segunda.batlogo150

CONTINUE SUA LEITURA EM “DIA 3 – PARTE 2”