Dia 3 – Parte 2

Departamento de Polícia de Gotham City, 4hrs

–Nós o perdemos de vista, senhor.

Gordon segurou o telefone com ódio, fechando os olhos para manter a concentração. Sem sucesso.

–Ele estava a pé, vocês na viatura. Como diabos vocês conseguiram perdê-lo de vista?

O policial do outro lado da linha gaguejava.

–Ele… Era rápido, senhor. Perdemos ele de vista quando ele foi para as árvores.

O parque do Reservatório de Gotham. Gordon esfregou o bigode enfurecidamente. Vou arrancar cada uma daquelas malditas árvores de lá.

–Mas nós ainda podemos alcançá-lo, Comissário – continuou o policial – Logo será dia e…

–Junte suas coisas, despache os outros para a Central. Você e Montoya vão cuidar do corpo.

–Mas quanto ao assassino…?

–O Batman está no caso.

Gordon quase pôde ver os pelos de seu interlocutor se eriçando.

–Não creio que haja necessidade…

–Não creio ter pedido a sua opinião – rugiu Gordon, quase mordendo o aparelho telefônico. – O Batman auxilia a polícia quando esta não consegue cumprir o seu dever. Vocês conseguiram completar a perseguição, de viatura, a um homem a pé?

–Senhor, não houve…

–Fiz uma pergunta direta, Thompson.

Houve silêncio na linha por alguns instantes.

–Não, senhor.

–Então cuide do corpo do pobre homem. Faça o trabalho que lhe resta fazer – Gordon desligou o telefone, já saindo de seu escritório. – Enquanto me resta esperar que o Batman faça o nosso.

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Túneis Ferroviários abandonados de Gotham, 4h15

–Patrão Bruce, ligação da linha Gordon.

–Pode transferir.

Um clique estalou no equipamento antes da voz de Gordon encher o veículo.

–Ele está no bosque próximo ao Reservatório.

Dois em uma semana.

–Outro homem?

–Sim, mas de um perfil completamente diferente. Dillon Wainn, 22 anos, viciado em hightech, perambulava pelo centro pedindo esmola.

–Wayne, você disse? – Perguntou Bruce.

Wainn, com “inn” no final. Nenhuma relação com o magnata esnobe.

Obrigado, Gordon.

–Não sabia que já tínhamos um gueto de viciados em hightech.

–Drogas não demoram a formar sua clientela – retrucou Gordon, com uma amargura além do usual na voz. – Já temos duas ou três áreas de viciados em hightech só no centro de Gotham.

Tenho que me lembrar de investigar isso depois. Hightech era uma droga psicotrópica que havia chegado a Gotham de Metrópolis, e estava fazendo um sucesso estrondoso nos clubes noturnos. Já a haviam oferecido à Bruce; era um quadrado pequeno, transparente, parecendo fita adesiva, que devia ser colocado na língua ou sob ela, para absorção mais rápida. Bruce aceitara e discretamente a guardara para pesquisa, descobrindo que o efeito, assim como o poder de vício da droga, era dez vezes mais forte e rápido do que qualquer outra droga conhecida, com a vantagem para os usuários de durar mais.

–Creio que os assassinatos têm a ver tráfico de hightech – Gordon comentou com um tom de descrença.

–Eu não acredito nisso. E nem você.

Gordon ficou em silêncio. Quando finalmente falou, já havia mudado de assunto.

–Eu estarei na ponte do rio Fingers com algumas viaturas. Deixe-o lá se conseguir pegá-lo.

Bruce esfregou os olhos, já se aproximando do bosque.

–Certo.

Já fora do Batmóvel, Batman olhou para as árvores do bosque, que pareceram estar em movimento por um instante, antes de se embrenhar nele.

Estava na hora da caça.

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Bosque do Reservatório de Gotham, 4hr15

Quando percebeu que já estava no centro do bosque, ele parou.

Respirou fundo o ar puro, deixando um sorriso escapar e se desenhar em seu rosto retalhado. O último corte ainda pulsava, latejando e fazendo sangue escorrer pela sua face. Quando o sangue descia muito, ele parava as gotas com sua mão, para impedir que o líquido viscoso caísse no chão.

Em pé, ele se alongou vigorosamente. Andou então até um arbusto, de onde tirou uma bolsa com diversas facas; dedicou alguns minutos então a fincar facas nas árvores, enquanto depositava outras atrás de arbustos e galhos.

Achando que estava tudo pronto, ele parou no mesmo lugar que estava antes.

Ali, sentou-se e, após fazer um corte em uma bolsa de sangue e espalhar o conteúdo sobre sua coxa, livrou-se de todas as bolsas, e esperou.

Estava na hora da caça.batlogo150

Bosque do Reservatório de Gotham, 4hr30

Batman já se aproximava do centro do bosque, quando viu movimentos por entre as árvores. Entretanto, mesmo quando ele parou silenciosamente, as sombras pareciam se mexer.

O que diabos está havendo comigo?

Porém Batman viu uma pessoa na pequena clareira no centro do bosque, e viu que sua mente não estava lhe traindo. Com agilidade ele se esquivou até se aproximar da clareira.

Lá, um homem calvo, vestido com uma camiseta de malha preta e uma jaqueta jeans estava sentado no chão, parecendo estar em dor. Batman logo viu a origem do sofrimento; uma profusão de sangue parecia brotar de um talho em sua coxa e descer por sua perna.

Batman moveu-se para a lateral, e, em um salto, avançou contra o homem. O alvo pareceu se duplicar, fazendo Batman titubear por um instante.

O homem se moveu para o lado, escapando com agilidade do ataque, e fincou uma faca sob o braço esquerdo de Batman.

Suprimindo um grito em sua garganta, Bruce tentou correr novamente para as sombras, porém seus sentidos pareceram falhar mais uma vez, e ele caiu.

–Hora de fazer o morcego sangrar! – Falou o homem, com uma calma e frieza inacreditáveis. Ele sacou duas facas, uma de cada lateral de seu quadril, e avançou sobre Batman.

Fazendo esforço para se erguer, Batman escapou do primeiro ataque, e aparou a segunda lâmina, partindo-a. O homem brandia a primeira faca com agilidade, fazendo-a sibilar junto ao rosto dele.

Batman mergulhou para a esquerda, desferindo um chute nas costelas do homem. Este deixou o ar escapar com o golpe, mas conseguiu passar a lâmina na perna do Batman antes dele se afastar.

Bruce pensou em ir para o meio das árvores e tentar um ataque surpresa, mas percebeu que sangrava, e isso deixaria um rastro se tentasse se esgueirar. O homem já vinha novamente para cima dele; Bruce, entretanto, via dois homens correndo na direção dele. Sem saber de qual dos dois se defender, Bruce golpeou o vento, mas o homem acertou o alvo.

Desta vez o Batman gritou quando sentiu outra faca cravar sob seu braço direito. A dor era excruciante e, combinada a sua cabeça em que tudo girava enlouquecidamente, sua vista parecia deslumbrar milhares de explosões a sua frente.

Dercaloxes, pensou Bruce sob a camada espessa de inconsciência que tentava colocar-se entre ele e a realidade. Foi o Dercaloxes.

O homem se aproximou pela frente, mais duas facas em suas mãos. Ele não sorria; seu olhar era distante e impassível, como uma estátua fria, assassina.

–Quem diria que o pobre Victor Zsasz conseguiria derrotar o grande Homem-Morcego – sua voz era seca e áspera como pedra-pome. – Mas, quando o universo conspira, não há homem que não se dobre.

Sob a névoa de dor, Batman viu diversos Zsasz o golpeando na clavícula, e Batman caiu de joelhos.

Uma lua de sangue refletia-se na faca de Zsasz enquanto a lâmina descia em direção ao rosto de Bruce Wayne.

Com um último lapso de concentração, Batman conseguiu travar a lâmina. Cedendo aos pedidos de seu corpo, ele se jogou para trás, trazendo Zsasz consigo, e então se lançando sobre ele. O movimento quebrou o braço do assassino; Bruce conseguiu ouvir o osso estalando e se projetando para fora em uma fratura exposta.

Zsasz caiu gritando de dor e se debatendo mas, por mais que tentasse, não conseguia remover o peso de Batman e seu uniforme de cima de si. Com um golpe imobilizante, Batman conseguiu prender os braços de Zsasz , e travou as pernas com seus próprios joelhos. Zsasz se sacudia violentamente, então Batman golpeou sua perna, somente para prendê-lo, porém sentiu o fêmur de Zsasz ceder sob a força e brutalidade seu golpe. O Batman rugia.

O que está havendo comigo?!

O peso sobre o braço quebrado e a fratura na perna foram demais para o homem, que desmaiou. O Batman levou a mão ao seu cinto, acionando o comunicador e o localizador, enquanto ondas horríveis de dor irradiavam de suas axilas, para o resto do corpo.

–Sim, patrão? – A voz de Alfred ecoou dentro do capacete.

–Mande Gordon – foi tudo o que ele conseguiu dizer. Sentia a faça lhe dilacerando, e percebeu que precisaria tirar a lâmina de lá. Unindo toda a energia que ainda lhe restava e, com um uivo ensandecido, retirou a faca de sob seu braço direito com a mão esquerda e, antes que pudesse se dar conta da primeira dor, inverteu o movimento, retirando a faca esquerda com sua mão direita. Uma profusão de sangue escuro e viscoso escorria por seu tronco e cintura, e Bruce já sabia que seriam chagas difíceis de fechar. Acionou novamente o comunicador. – Preciso de carona.

–Estou a caminho, patrão.

Ainda assim, mesmo sob a cornucópia de dor e pânico que pulsava em sua mente, Batman resistiu.

Passaram-se ainda alguns minutos antes que Gordon os alcançasse. Trazia cães e diversos policiais em seu encalço; porém, quando viu a cena em sua frente, mandou que estes ficassem para trás e, sozinho, adentrou a clareira. Viu todo o sangue que banhava a cena, e viu de onde ele vinha; ergueu seu olhar com cautela, mirando o rosto distorcido pela dor da gárgula de Gotham.

–Achei que sua armadura fosse indestrutível.

–Eu preciso me mover – murmurou Batman, levantando cambaleante de sobre o homem. – Tire ele daqui. Eu preciso ir também.

–Por motivos óbvios – Gordon assentiu, acenando para que seus policiais se aproximassem. – Eu trouxe paramédicos. Quer que eles te examinem?

Gordon pensou ter visto Batman sorrir em resposta, embora aquilo também pudesse ser um repuxo de dor.

–Eu o deixo provisoriamente no Arkham?

Batman olhou para Zsasz no chão, ainda desacordado, lembrando dos poços negros no lugar onde deveria estar os olhos do homem.

–Mande-o para a cadeia. Ele é cruel, e não louco.

Gordon concordou em silêncio, apenas acenando para Batman e saindo da clareira. Os policiais ergueram o homem pesadamente em uma maca, levando-o ainda sem sentidos para longe dali. Pela primeira vez Batman pôde ver as costas do homem onde, em sua jaqueta jeans, um grande J prateado brilhava sob o luar bruxuleante.

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