Dia 3 – Parte 3

Mansão Wayne, 6hrs

Bruce estava deitado em sua cama, respirando levemente sob o efeito do anestésico que Alfred lhe aplicara, enquanto o mordomo suturava o ferimento sob o braço direito.

–Ele estava esperando por mim, Alfred – Bruce disse, não pela primeira vez desde que retornara. – Ele tinha facas espalhadas por todo local. Ele fingiu estar ferido para me levar a atacá-lo. Ele estava esperando por mim.

–Ele devia ter um informante no Departamento de Polícia, Patrão Bruce – Alfred ponderou, com sua calma característica, enquanto passava a agulha esterilizada pela pele do patrão.

–Há mais por trás disto, Alfred. Eu sei que há.

Olhando de soslaio, Alfred notou que Bruce tremia levemente. Delicadamente tomou o pulso de Bruce. Ele suava frio em febre. Alfred embebeu um pano com álcool e passou na parte da ferida que ainda estava aberta. Se Bruce sentiu o ardor do líquido, não deixou transparecer.

–Havendo ou não, patrão – a agulha deslizava com cautela, fechando a ferida completamente -, o senhor necessita se recuperar antes de partir em qualquer empreitada. Os talhos foram profundos, e foi por pouco que não lhe causou danos reais. O senhor precisa agir com prudência.

–E projetar uma forma de proteger minhas axilas.

Alfred sorriu.

–Aproveite e descubra uma forma mais prática de pilotar o helicóptero. De nada adianta ele ser extremamente silencioso e camuflável se o piloto perder o controle e acertar um prédio.

–Você foi da RAF, Alfred – lembrou Bruce, com um filete de voz. – Imaginei que você fosse tirar um simples helicóptero de letra.

–Isso foi há um longo tempo, patrão – as hábeis mãos de Alfred agora limpavam os pontos. – Também já fui ator, mas nem por isso me recordo de todas as falas de Rei Lear.

–Por que sinto que você ainda se lembra de algumas? – Caçoou Bruce, enquanto sua cabeça pesava e sua consciência lhe escapava.

Alfred somente sorriu e se levantou, saindo do quarto. Já à porta, virou-se com um olhar real.

–”Tenho eu toda a causa para chorar, porém este coração quebrar-se-á em cem mil falhas antes que eu chore” – recitou o mordomo, levando a mão ao peito. – “Ó, tolo, irei à loucura!”

Bruce alargou o sorriso, fechando os olhos vagarosamente enquanto Alfred lhe correspondia.

O mordomo fechou a porta atrás de si, caminhando para a sala de leitura. Lembrava-se da época que fugira desta mesma mansão, seguindo a trupe de teatro itinerante para seguir seu sonho. Lembrou-se de Marie, e de como seu sonho se partira em suas mãos. Lembrou-se da RAF, e de como a terra e o ar cheiravam como morte, e como esse cheiro significava derrota, mesmo para os que venciam. Lembrou-se de seu pai, de sua morte, de seu pedido, e do retorno à Mansão Wayne. Lembrou-se do nascimento do pequeno Bruce, e de todas as perdas e dores que sofrera, e como se tornara o homem que agora escalava paredes e corria por telhados, protegendo uma cidade que em sua maioria o odiava ou simplesmente não se importava com sua existência.

Alfred sentiu suas narinas arderem, e conseguiu se recompor antes mesmo que as lágrimas se insinuassem em sua face.

Desceu à Caverna, e as luzes que se acendiam automaticamente bruxulearam as memórias para longe dele, e a tela do computador chamava a sua atenção.

Apressou seus passos até a estação e, em alguns cliques, abriu a tela. O computador havia encontrado uma correspondência para a amostra de sangue.

–Jerome Jenkins – leu em voz alta, esperando que o nome lhe lembrasse algo, porém nada veio à mente. Lançou então o nome no buscador, torcendo para que aparecesse alguma coisa para terminar aquele mistério que começava a ganhar contornos de pesadelo.

Enquanto o mecanismo de busca rodava, Alfred lembrou-se do olhar em Bruce quando falou de Zsasz. Seus olhos brilhavam, mas de uma maneira… Estranha. Nunca vira aquela expressão no rapaz antes.

Então sua tela ficou estática com os resultados da busca, e Alfred atribuiu o olhar à febre, esperando secretamente que estivesse certo.

Químico, Batman. Bruce. Bruce Wayne. Faça o que deve ser feito. Não mate. Mas você me matou, Batman. Bruce, Bruce Batman Wayne, Batman, Bruce, HaHaHaHa!

E eram garras, mãos, peles brancas e ossos que se aglomeravam em seu pescoço, lhe arranhavam, lhe faziam gritar, esbravejar, suplicar. Eram cortes, e dores, e ácidos que queimavam seu rosto – era mesmo seu rosto? – e sua mão, e todo o seu corpo, e ele mergulhava em ácido, e ele já não era mais ele, pois via seu próprio rosto pairando acima dele, na borda do tanque, mas o rosto não era o dele, era o de seu pai, e seu pai parecia estar triste, com ele, desapontado, e sua voz ecoava em turnos, dizendo “faça o que deve ser feito apesar do que você sente” e “do químico viestes, para o químico voltarás!”, seguido por uma risada demoníaca.

Quando seu pai esticou-se para pegá-lo, seus braços terminavam em garras ao invés de mãos, e seu pai o afogou ao invés de puxá-lo, mergulhando-o em ácido.

E Bruce Wayne acordou com um grito preso na garganta.

Imediatamente sentiu que o ímpeto que o fizera erguer-se na cama fora demais; sentia sua carne queimar, como se um roedor estivesse alojado sob sua pele, destruindo nervos e músculos, então deixou-se cair de volta para a cama com um baque surdo.

A dor era tremenda, e sua mente estava turva e enevoada.

Como aquela noite.

Sua cabeça pulsava, e a força da aflição era grande. Bruce respirou fundo.

Estendeu o braço, alcançando sua mesa de cabeceira. Titubeou por um instante, porém uma nova pontada, que fazia parecer que outra faca em chamas entrara em seu corpo, o impulsionou.

Em um movimento único, Bruce Wayne ingeriu três capsulas do Dercaloxes, entregando-se à escuridão que ele esperava que o tomasse até que a verdadeira escuridão o acordasse e o recebesse de braços abertos.

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Departamento de Polícia de Gotham City, 8hrs

–Senhor, o homem foi identificado como Victor Zsasz. Encontraram uma correspondência de digital no banco de dados de Star City.

–Ótimo – retrucou Gordon, mal-humorado, encarando a xícara de café fumegante à sua frente – a terceira que tomava para se manter acordado depois da noite em claro.

–E quanto às roupas de Zsasz? Quer que retiremos amostras de sangue?

Gordon levantou a cabeça, subitamente desperto. Seus olhos se alargaram por um instante, revivendo a noite passada.

Ele então simplesmente abaixou a cabeça novamente.

–Isto não será necessário, nós já o identificamos. Lave-as e as guarde para quando, ou se, ele sair um dia.

O homem assentiu e saiu do escritório, deixando Gordon saboreando o sabor amargo de seu café e de suas escolhas.

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Escritório de Lonnie Machin, 10h48m

Lonnie finalmente conseguira fazer uma pausa para ler o jornal da manhã. Olhava as notícias com calma, procurando furos nas histórias; era mais importante para homens como ele saber o que as notícias não diziam do que o que elas realmente relatavam. Uma manchete, logo nas primeiras páginas, chamara sua atenção: o homem que matara dois nas imediações do rio Finger havia sido preso.

Pelo Batman.

Lonnie passou suas mãos pelo seu cabelo liso e negro, levando para trás, apenas para que ele caísse sobre seu rosto novamente. Cansado de esperar sentado, levantou-se, alisou seu terno perfeitamente cortado, e se pôs a mirar pela janela. A sua vista do segundo andar dava somente para a alta torre do One Gotham Center, porém ele gostava da paisagem, pois dali ele conseguia ver o topo da torre do OGC, a cobertura. Seu destino.

Apesar de ter ficado órfão ainda muito jovem e ser desprezado pelos garotos do orfanato, Lonnie Machin sempre soubera que havia nascido para a glória. Via em figuras como Napoleão e Abraham Lincoln não apenas exemplos, mas seu próprio futuro. Ele libertaria o povo, e conquistaria qualquer um que se pusesse entre os seus e a liberdade.

A realidade o atingira ainda mais forte quando completara 18 anos e fora dispensado do orfanato, mas nada o abatera.

Podia estar em um nível baixo, mas ainda era mais alto do que jamais estivera.

E agora a mídia o expunha; políticos e empresários o abordavam, oferecendo acordos e propondo valores obscenos para que Machin os colocasse em boa posição. Eles não entendiam; o único que jamais estaria em boa posição seria o próprio Lonnie, o pequeno Lonnie, o Lonely Lonnie, como as crianças do orfanato lhe chamavam. Ele alcançaria os degraus mais altos, e de lá ajudaria todo e qualquer Lonnie, independente do sexo, da idade, da etnia ou de qualquer outro fator.

Não temas, Gotham, disse ele para si mesmo, sorrindo. Seu verdadeiro heroi está a caminho. E agora, com a nova aliada que receberia naquele dia em seu time, a derrocada do demônio de Gotham que chamavam de Batman seria apenas uma questão de tempo.

Pouco tempo.

–Senhor Machin?

Um de seus assistentes batera e entrara, e ele nem mesmo tinha notado.

–Diga, Alan.

–Duas notícias – ele anunciou, e Machin pôde perceber que eram boas pela agitação do garoto. – O homem que o Batman prendeu?

–Zsasz.

–Sim, ele mesmo – o jovem se aproximou, nervoso, e entregou um papel para ele. – Eu recebi uma informação do nosso contato na polícia. O homem foi seriamente espancado, e quebrou um braço e o fêmur esquerdo no confronto com o Batman.

–Zsasz foi pego em flagrante?

–Não, senhor. A polícia recebeu uma ligação anônima informando do segundo assassinato.

Machin abriu um largo sorriso.

–Então o vigilante agrediu e arrebentou um homem que não teve culpa comprovada?

–Exatamente – retrucou Alan, abrindo um sorriso igualmente largo.

Assim fica fácil demais, Batman.

–Ótimo. Entre em contato com Peterson e consiga um habeas corpus imediatamente.

–Certo. E a doutora já chegou.

–Ótimo, mande-a entrar.

Machin se serviu uma dose curta de uísque barato enquanto a esperava. Esses dias estão para acabar, refletiu enquanto o gosto vulgar da bebida enchia seu paladar.

A porta se abriu, e uma jovem mulher entrou. Não devia ter mais de trinta anos, e era linda. Seus olhos eram de um azul claríssimo, como uma lagoa após a tempestade, e seus cabelos loiros caíam até seus ombros, emoldurando uma face de traços perfeitos.

–Olá, bom dia – cumprimentou Machin, esforçando-se para se concentrar sob o efeito da aura de força daquela mulher. – Bom finalmente conhecê-la e tê-la nas nossas linhas. Precisávamos com alguém com experiência própria de vida prejudicada pelo Batman para derrubá-lo – ele sorriu o melhor sorriso que conseguiu produzir enquanto lhe estendia a mão. – Eu sou Lonnie Machin.

Ela sorriu de volta, e seu olhar inteligente reluziu enquanto ela apertava a mão de Lonnie com delicadeza.

–Prazer, senhor Machin – ela respondeu com uma voz aveludada – Eu sou a doutora Harley Quinn.

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