Dia 4

Click.

–13 de março, sétima sessão de Bruce Wayne. Olá, Bruce.

–Olá, doutora Kerman.

–Como você está hoje?

–Ligeiramente mal-humorado. Não gosto de acordar cedo.

–E por que você teve de acordar cedo?

–Eu estou aqui, não estou?

–São 11 da manhã, Bruce.

–Não sou um ser diurno.

Pausa.

–Achei que já havíamos conversado sobre os óculos.

–Achei que era só por aquele dia.

–Por favor, Bruce.

–Pronto. Do que trataremos hoje, querida doutora?

Suspiro.

–Gostaria de me aprofundar na questão dos seus pais.

Pausa.

–O que você quer saber?

–O que você gostaria de contar?

–Estávamos em uma peça de teatro, saímos mais cedo, um cara chamado Joe Chill atirou no meu pai quando ele tentou defender minha mãe, depois atirou nela no susto.

–E como isso te afetou?

–Ah, maravilhosamente bem. Tornei-me uma criança extremamente comunicativa e de bem com a vida depois disso.

Pausa prolongada. Suspiro.

–O mordomo, Alfred, se tornou meu tutor legal, conforme o testamento do meu pai. Minhas notas caíram na escola. A Mansão virou um mausoléu.

–E como isso te afeta?

–Já passou, doutora.

Silêncio.

–Você falou que seu pai foi… Alvejado enquanto tentava proteger sua mãe. Isso condiz com a personalidade dele?

Muxoxo.

–Ele vivia para salvar pessoas. Era o que ele fazia de melhor; ajudar e salvar todos ao alcance dele, sem olhar de onde elas vinham, quanto dinheiro elas tinham, ou quanta influência elas exerciam. Então sim, condizia com a natureza dele se jogar na frente de alguém para protegê-la, principalmente sendo sua esposa.

–Sua mãe.

–Coincidentemente sim.

–Você admirava essa qualidade dele?

–Você não admiraria?

–Não foi esta a pergunta que eu fiz.

–Sim, doutora. Eu admirava muito essa qualidade dele. A qual ponto você quer chegar?

–Eu tenho que querer chegar a algum ponto? Mas digamos que sim – riso leve. – Qual você acha que seria o ponto?

–Levando em conta o que me trouxe até aqui, creio que você esteja tentando descobrir a raiz da minha “tendência autodestrutiva”. Acertei?

–Eu nunca disse que você tinha uma tendência autodestrutiva.

Silêncio.

–Você não precisa temer não ser alguém que você não é, Bruce. Não há “elevação de nível”, porque não há disputa. Você não precisa desistir de um jogo que não existe. Você não está competindo com seu pai.

Silêncio prolongado.

–Posso ir agora, doutora?

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Dia 4

Centro de Gotham, 10hrs

–Como estou?

–Está ótimo, senhor.

Lonnie Machin analisava-se no espelho, alinhando a gravata prateada e seu terno preto cortado de forma aprazível. Em breve, Armani.

–Estamos prontos, senhor.

Machin assentiu com a cabeça e caminhou para fora do camarim, enfrentando o forte sol de Gotham e uma multidão considerável de repórteres e curiosos que esperavam o anúncio de Machin, o porta-voz da organização pró-Direitos Humanos mais expressiva em Gotham nos últimos tempos. Machin notou que diversas pessoas levavam bandeiras com os dizeres “Justiça Real é Justiça Julgada”, “Abaixo Prisões Arbitrárias”, “Abaixo a Batmancracia”. Os números aumentam a cada dia, ele notou, e reprimiu um sorriso de satisfação.

Aproximou-se da tribuna, com uma expressão séria e, após um aceno rápido, iniciou seu discurso, sem ler nenhum papel.

–O movimento “Justiça Real” já existe há algum tempo em Gotham – seis anos, para ser exato. Neste meio tempo, levantamos diversas bandeiras, como vocês podem ver, em prol do cumprimento dos Direitos Humanos, os quais eram constantemente usurpados por parte da polícia e do mascarado que chamam de Batman, com o aval mudo das autoridades no poder – esta palavra lhe despertou a fome característica, trazendo à sua mente ao almoço do dia anterior.

Hamilton Hill mexia no seu prato com um desinteresse não compatível com seu corpanzil.

–O que você quer fazer é ousado. E eu já tentei antes. O Batman é intocável.

–Pensei que uma das vantagens de se ser prefeito era de ser intocável.

Os lábios rechonchudos de Hill se contorceram com raiva.

–Eu detenho o poder do povo. Eu sou o povo, sou sua representação. Mas Batman é maior. Batman é o seu símbolo.

–E o símbolo prevalece sobre a representação?

–O símbolo vai além da representação.

–E eu quero destruir o símbolo, e tudo o que ele representa.

–Uma das bandeiras que mais foram regidos sob a batuta da Justiça Real foi a criminalização total das atividades do bandoleiro conhecido como Batman. O povo foi às ruas, manifestou sua vontade e seu descontentamento, porém nada foi feito, sob a desculpa de não haver provas – o silêncio era preenchido pelos olhares de atenção e interrompido vez ou outra por uma câmera batendo uma foto. Machin fazia sua melhor expressão de sério, olhando para os lados com aparente repulsa. – Certo. Então daremos provas. Daremos duas provas. Eu gostaria de chamar aqui ao palanque o senhor Victor Szasz.

Um murmúrio de surpresa percorreu a plateia como o esperado, enquanto Harley Quinn trazia Victor Szasz para o palanque em uma cadeira de rodas. Sua perna estava quebrada, assim como seu braço, e a atadura em sua lateral sugeria que suas costelas também o estavam. Seu rosto estava inchado e coberto de cicatrizes – embora estas fossem antigas – e Machin pensou que nem mesmo a mãe do infeliz conseguiria reconhecê-lo naquele estado. Harley, por outro lado, estava lindíssima; seus cabelos loiros estavam presos em um coque discreto, e seu tailleur violeta destacava o azul iridescente dos seus olhos.

–O que aconteceu? – Gritou um repórter. – Quem fez isso?

Ainda lutando para reprimir um sorriso grato, Machin respondeu com uma voz grave:

–Foi o Batman.

–Como eu disse, eu já tentei derrubá-lo. Outros já tentaram. Como você deve imaginar, nenhum foi bem sucedido.

–Porque, com todo o respeito devido, vocês percorreram o caminho errado, senhor prefeito – Machin avançou com seu tronco sobre a mesa, na direção do prefeito. – Não é assim que se destrói um símbolo. Enquanto o que ele representa existir, o símbolo também existirá. Eu vou ser bem sucedido porque vou esvaziar o símbolo de significado.

Hill o olhava com olhos semicerrados, em um misto de dúvida e interesse.

–E como você vai fazer isso?

–Despindo o Batman de significado.

–Você não deixou nada mais claro.

–Você vai ver quando acontecer.

O murmúrio cresceu, tornando-se uma avalanche de gritos e perguntas e mãos estendidas para o alto. Machin acenou apaziguadoramente, pedindo silêncio.

–Zsasz foi a última vítima do absurdo que é a existência do Batman em nossa sociedade – rosnou Machin no microfone. – Ele foi espancado e incapacitado pelo Batman de tal forma que não se sabe se jamais voltará a andar; e isso sem nem ao menos um julgamento! – A voz dele ribombava, mesmo estando em espaço aberto – Onde está o aparato legal que construímos?! Onde está o “inocente até que se prove o contrário” e o ideal da humanidade?! Onde está o direito de o indivíduo não ter seu corpo violentado nem violado de forma alguma? Onde estão as autoridades verdadeiramente competentes, e o que fazem enquanto isto acontece?

–Por que o Batman fez isso?

Machin respondeu à pergunta inicialmente com um riso amargo.

–Por que o Batman faz qualquer coisa? Simples: porque ele pode. Porque ele quer. Quem conferiu poder a ele? Quem lhe autorizou ser juiz, júri e carrasco desta forma? Vamos esperar até que ele mate outro homem antes de agir a respeito? O que precisa acontecer?

–E quando “vai acontecer”?

–Começa amanhã. O primeiro golpe será amanhã. Mas eu te prometo, senhor prefeito: o último golpe será dado ainda esta semana.

Hill soltou um grunhido que deveria ser uma risada, e bebericou seu vinho.

–Você é um moleque inexperiente. Não é esse o modo no qual as coisas funcionam na política, filho.

Foi a vez de Machin se encrespar.

–O que eu sei, senhor prefeito, é que o seu modo não tem dado frutos. E se continuar assim, o símbolo, além de atrapalhar os seus… negócios paralelos, mais cedo ou mais tarde se tornará tão forte que uma representação não será mais útil.

–Não seja ridículo – a voz de Hill pingava em vinho e escárnio. – Ele não tem…

–O quê, senhor prefeito? Poder? Legitimidade? O povo reconhece mais o Batman como figura emblemática de poder do que o senhor; e eu sei que o senhor sabe disso. Ele antes era só uma figura interessante, porém hoje já tem a polícia no bolso – ou o senhor não sabe que o DPGC o convoca com um canhão de luz sempre que precisam dele?

–Me parece que a polícia o usa, e não o contrário.

Machin riu com deboche.

–Ele aparece quando quer, como quer, e se quiser. Que tipo de ferramenta escolhe quando vai ser usada, senhor prefeito?

Hill parecia ter engolido fel em vez de vinho; sua face se contorcia em nuances de nojo à cólera.

–E se ele não é a ferramenta… Diga-me, senhor prefeito, quem o é?

Machin percebeu que precisava desferir o último soco deste round.

–Quanta dor ele ainda precisará infligir até que se faça algo? Quantas pessoas mais ele precisará ferir como fez com a senhorita Harley Quinn para que nos mobilizemos?

Quando Machin apontou para a bela loira em seu tailleur e citou seu nome, a multidão irrompeu em frenesi. Eles sabem quem ela é.

–Como vocês bem devem saber – reiniciou Machin, sobrepondo a algazarra com sua voz -, Harley Quinn esteve ao lado do homem conhecido como Coringa…

–Bem ao lado! – Gritou um repórter com violência. – Ela era cúmplice dele!

–Ela foi considerada como cúmplice dele – interrompeu Machin, indignado. – Assim como os supostos crimes do Coringa, os declamados delitos da senhorita Quinn nunca foram provados; ela ainda assim preferiu a reclusão nos últimos sete anos, mas agora… Acho melhor que você mesma fale com eles, senhorita Quinn.

Harley se aproximou do microfone com uma expressão firme e decidida. Ficou em silêncio por alguns instantes e, quando começou a falar, sua voz parecia envolver o local como seda.

–Por anos eu vi o que o Batman é capaz de fazer, e o que ele faz. E nada pode impedi-lo ou restringi-lo, a não ser sua própria vontade. Ele se autogoverna, acima de qualquer lei. E pessoas que se colocam acima da lei não deveriam ser chamadas de heroi, porém de déspotas – ela deixou a frase ecoar nas mentes que a ouviam. – Me ausentei de qualquer vida pública pelos últimos anos, porém agora nos aproximamos do sétimo ano da morte, do assassinato do Coringa, e é o senhor Zsasz que o Batman nos dá de presente de aniversário – a voz dela vibrava com paixão. – E foi realmente um presente para o povo, embora seja uma maldição para Victor Zsasz; é um presente para o povo por ser um lembrete, uma chamada para despertar, para que possamos perceber que o Batman é o cavaleiro das trevas não só por viver nelas, mas por tê-las dentro de si.

Hill ergueu os olhos, fitando Machin com profundidade.

–O que você precisa que eu faça?

–Nada – Machin respondeu, de braços abertos e um sorriso semelhante. – Eu farei o que é necessário. Eu só preciso que o senhor me dê carta branca.

–E o que você ganha com isso?

O sorriso de Machin esmoreceu levemente.

–Sempre haverá um símbolo, senhor prefeito, e ele é necessário e bem-vindo, desde que não vá contra as esferas superiores. Quando um símbolo cai, outro deve ser erguido no lugar.

–“Justiça Real” – Completou o prefeito, sorrindo enquanto cortava sua carne mal-passada.

–“Justiça Real” – repetiu Machin, que sabia já ter ganho o que precisava.

Hamilton Hill só precisou de mais um minuto de pensamentos para chegar ao ponto no qual Machin o esperava.

–Obrigado, senhorita Quinn – Harley assentiu e se retirou enquanto Machin voltava para o microfone. – Tendo em vista este fato hediondo e este relato, o Dia D será crucial para que possamos derrubar a falsa justiça e pôr a nova em seu lugar, como o sol que se segue à noite. Faltam quatro dias para este momento, então estamos em D-4. A contagem regressiva começou.

O público parecia beber de suas palavras com sofreguidão, como se esta fosse a verdade que ansiaram por tanto tempo no deserto.

–Faça.

–Fazer o quê?

–Faça o que precisar ser feito – rosnou Hill, com um ódio palpável – para destruir o Batman.

–É hora – disse Machin, em um tom baixo e retumbante para a plateia sedenta. – O Batman deve cair.

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Mansão Wayne, 19hrs

–…e esse foi o poderoso discurso de Lonnie Machin pela “Justiça Real”. Jennifer Olsen está na praça da Torre Wayne nesse exato momento, para comentar os desdobramentos do discurso. Jennifer?

Alfred permaneceu estático, os olhos atentos, focando a movimentação sutil da câmera em direção a uma repórter ruiva, que exibia um olhar firme.

–Olá, Stacy. Aparentemente, o clamor de Lonnie Machin pela queda do Batman encontrou eco nos gothamitas esta manhã. Movimentos por uma lei especificamente contra o Batman surgem com mais vigor, e os manifestantes alegam que o evento do Dia D da “Justiça Real” e de Lonnie Machin seria o dia de uma passeata histórica para a cidade de Gotham, embora maiores detalhes ainda não tenham sido revelados. Procurado para comentar o assunto, o prefeito Hamilton Hill não quis se pronunciar. As autoridades…

–Seu garfo e tocha estão preparados, Alfred?

O mordomo não havia percebido a aproximação do patrão, mas também não demonstrou surpresa.

–Vou me contentar com uma placa, Patrão Bruce – Alfred olhou para Bruce de soslaio, percebendo um brilho opaco na fronte dele. Este brilho estranho, pensou, um segundo antes de expulsar a ideia para um recôndito de sua mente. – O senhor está bem?

–Estou ótimo – Bruce respondeu, seu lábio tremendo levemente ao falar. – O guisado estava muito bom.

–Vejo, então, que o encontrou na cozinha.

–Meu nariz o percebeu de longe – Bruce virou-se e sorriu, sua face resplandecendo com algo de errado.

–Fico feliz que tenha gostado, patrão Bruce.

Bruce sustentou o olhar por mais alguns instantes, suas pupilas dilatadas e vítreas. Ah, meu garoto… O que você está fazendo?

–O computador encontrou uma correspondência para a amostra de DNA no criptex.

–Ótimo – respondeu Bruce, virando as costas e indo para os fundos da Caverna. – Quem é?

–Jerome Jenkins.

–Jerome Jenkins – repetiu Bruce, entrando na cápsula que continha seu uniforme. – Jenkins. Este nome não me lembra de nada. E você, Alfred?

–A mim também não, senhor – retrucou Alfred, notando onde Bruce estava. – O Batman vai sair, senhor?

–Sim – a voz de Bruce saía metalizada de dentro da cápsula. – Tenho que fazer uma visita à Gordon e descobrir como Zsasz conseguiu sair da prisão. E tenho que visitar uma velha amiga também.

–Não creio que seja uma boa ideia, senhor – Alfred sentia em seus ossos que algo ruim estava para acontecer. Bruce deveria se recuperar plenamente, tanto seu corpo quanto a imagem do Batman, antes de se expor desta forma. – Harley Quinn está em voga e, ao contrário do senhor, ela está sob boas luzes.

–Eu não me importo a luz sob qual ela está, Alfred. Eu vou apagá-la – Batman saiu de dentro da cápsula, suas palavras atropelando-se em um som baixo e grave. – Eu funciono melhor nas sombras.

–Com todo respeito, patrão Bruce, não acho que seja prudente nos dedicarmos a jogos de palavras neste momento – rebateu Alfred com urgência. – Há muito, muito em risco agora. Você não pode ser visto com Harley Quinn. Lhe chamarão de repressor, de covarde.

–Nada que já não digam hoje – rosnou Bruce, dirigindo-se ao computador.

–Patrão, eu lhe peço… – Alfred iniciou, pondo a mão sobre o ombro de Bruce.

Eu lhe peço que se afaste, Alfred! – Rugiu Batman, desvencilhando-se com violência do toque do mordomo.

Em choque, Alfred viu algo que jamais vira queimar nos olhos de seu patrão, pelo menos não voltados para ele.

Fúria.

Ainda assim, rápido como se acendera, esta chama se apagou. Batman ergueu o queixo com imponência após um leve suspiro.

–Eu preciso resolver isso, Alfred. Eu preciso solucionar isto. Acho que estou mais perto da verdade.

Alfred ainda estava parado na posição que o solavanco de Batman o deixara. Com um rearranjo de dignidade, reassumiu sua postura, curvando-se levemente na direção de seu patrão.

–Como quiser, senhor.

Batman abriu a boca por um instante, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas, o que quer que fosse, se perdeu em sua vontade e, num movimento ao mesmo tempo abrupto e sutil do Batmóvel, o patrão Bruce não estava mais lá.

Da mesma forma que o garoto não estivera, tantos anos antes, quando a hora do jantar chegara, apenas para ser encontrado horas depois naquele poço escuro que o mudaria para sempre.

Às vezes Alfred se perguntava se o garoto jamais retornara dali.

Pela primeira vez em todo aquele tempo, sua resposta foi um sólido “não”.

Decidido, acionou a tecla de discagem do computador.

–Ligar Drake.

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Velha Gotham, 20hrs

Batman agarrava o volante do Batmóvel com força, de forma que seus dedos latejavam com o sangue que circulava mal. Sua boca se fechava e abria involuntariamente, seca, sem emitir som algum. Sua mente se turvava fracamente, de forma que ele era obrigado a apertar os olhos para conseguir enxergar as vielas de Gotham que só ele e um punhado de ratos conheciam.

Zsasz usava uma jaqueta com a letra J nas costas.

Deixou o veículo em um dos diversos esconderijos espalhados pelo centro da cidade, e se esgueirou para as sombras. Sentia que sua cabeça girava velozmente; começando a beirar o desespero, acessou seu cinto e tirou o pequeno frasco de Dercaloxes de lá.

Ele está brincando comigo às vésperas do aniversário de sua morte.

Fez três pílulas descerem por sua garganta e, ansioso, desceu uma quarta. Imediatamente sua visão se limpou, e uma paz desceu sobre ele como um manto frio, fazendo-o relaxar, embora ainda não conseguisse manter uma linha de raciocínio constante por muito tempo.

Após alguns sofridos minutos, terminou de atravessar a cidade, chegando ao Departamento de Polícia de Gotham City. Alçou-se até a escada de incêndio da lateral do prédio e, num salto, alcançou a janela de Gordon.

–Boa noite, Comissário.

–Jesus! – Exclamou o homem, surpreso, derramando um pouco de café quente em seu próprio colo. – Por Deus, já lhe pedi para não fazer isso – rosnou, passando um lenço umedecido para limpar a calça.

–Como Zsasz foi solto?

Gordon olhou com suspeitas para Batman.

–Não tínhamos como mantê-lo aqui.

–Claro que podiam.

–Não tínhamos provas.

–Vocês tinham o sangue na roupa dele, e DNA e sangue das vítimas – Batman podia sentir, ao longe, sua cabeça voltando a latejar.

–As provas se perderam.

Como as provas se perderam?

Gordon balançou a cabeça, suspirando, enquanto tragava de seu charuto apagado.

–Você sabe como essas coisas acontecem, Batman. Alguém queria que a prova sumisse, a prova sumiu.

–Você não impediu?

–A prova sumiu no dia seguinte de ter chegado – Retrucou Gordon, com um tom decepcionado, porém não surpreso, enquanto dava de ombros. – Coincidentemente ou não, horas depois veio uma ordem do próprio perfeito Hamilton Hill ordenando a soltura de Zsasz, visto que não tínhamos mais provas contra ele. O prefeito ficou sabendo do sumiço das provas antes de mim – Gordon concluiu com uma risada amarga.

–Você não poderia ter deixado isto acontecer, Gordon.

O comissário de soergueu na cadeira, visivelmente contrafeito.

–Não gosto da ideia de você me dar ordens, Batman – disse, sem alterar o tom de voz – Além disso, levando em conta os últimos acontecimentos, você deveria ser muito grato por certas amostras de sangue se perderem.

Batman não o ouvia.

–Precisávamos de Zsasz preso. Precisava interrogá-lo.

–Você não é da promotoria municipal.

–Deviam tê-lo mantido preso…

–Eu queria isso tanto quanto você, mas não havia nada que eu pudesse fazer.

–…ele é um perigo para toda a sociedade, mas ele não é a ameaça principal. Há algo por trás disso tudo, Gordon, sei que há.

–Também suspeito disto, Batman, mas eu não podia–

–Vocês não podiam ter deixado ele sair! – Rugiu Batman, esmurrando a mesa de Gordon. Gordon se pôs de pé num salto, a mandíbula frisada com fúria, seus olhos cintilando ameaçadores, acinzentados, de costas para o luar tremeluzente.

Permaneceram estáticos por alguns instantes. Gordon então levou o charuto à boca, finalmente o acendendo.

–Saia do meu escritório – ordenou, impassivelmente – Agora.

Batman ainda quedou-se por um momento antes de se virar novamente para a janela.

–Só tenho dois conselhos para te dar, como amigo, se é que posso nos considerar assim – a voz de Gordon ressoou, fazendo Batman estacar de costas para ele. – Fique longe de Zsasz, Machin e, principalmente, fique longe de Harley Quinn. Você não é a figura mais querida de Gotham neste momento, mas eles são. Você se meter com eles agora não é a melhor ideia.

Batman ouviu quando a xícara de café tocou na mesa, e continuou ali esperando a segunda parte. Gordon se abaixou para pegar seu cinzeiro em sua gaveta.

–E eu vi suas pupilas, percebi sua respiração. Eu comecei na Narcóticos, filho. O que for que você esteja tomando, pare imediatamente.

Gordon bateu as cinzas no cinzeiro, olhando para o grande vazio onde Batman estivera um segundo atrás.

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Distrito da Prefeitura, 21hrs

O vapor da água quente queimava sua pele tanto quanto o líquido em si, mas ela não se importava; já sofrera queimaduras piores. A água escorria constante e perene por seu cabelo dourado, descendo por suas costas arqueadas. Sua respiração estava entrecortada, vacilante, enquanto ela tremia, apesar da temperatura da água. Seu maxilar se batia fortemente, como se estivesse revoltado, enquanto ela se abraçava sob aquela chuva artificial.

Quando finalmente tomou coragem e abriu os braços, um grito de dor rompeu de seus lábios, quando a água quente misturada ao sabão passou sobre e para dentro de um ferimento novo feito na altura de sua escápula. O sangue ainda vertia escuro e viscoso, escorrendo pelo vale de seu colo, tão quente quanto a água que o lavava.

Seu corpo sacudia-se de dor, e lágrimas caíam dos seus olhos. Ela se deixou cair no canto do box, recostando-se contra as paredes de cócoras, o jato do chuveiro batendo em seus joelhos. Agora mordia seus lábios, tentando controlar os tremores. Aumentou a temperatura da água, já escaldante. Desligou o chuveiro, decepcionada ao perceber que o frio estava dentro dela.

Ainda nua, limpou o vapor do espelho, fitando sua imagem no vidro úmido. O ferimento parara de sangrar, embora a lâmina que o fizera ainda estivesse vermelha, caída dentro da pia, convidativa. Ela tirou o instrumento da louça com cuidado, pondo-o de lado, e voltou a mirar-se. Reconheceu o rosto limpo, sem maquiagens e sem hematomas – o rosto com o qual aprendera a conviver ao longo dos últimos sete anos. Tocou sua própria pele, sem a sensibilidade exacerbada causada pela adrenalina constante. Sem a tensão. Uma tranquilidade estranha.

Sabia que aquilo era o melhor para si, porém isso não significava que tudo que se passara antes fora ruim – ou significava? Abraçar uma nova vida, um novo combate, significava automaticamente renegar tudo o que vivera antes?

Não importava. Nada disso importava. Independentemente de tudo o que vivera e das experiências que acumulara, ela teria que aceitar que tudo isto estava inacessível, e aprender a lidar com a vida que tinha agora.

Harley Quinn tinha que aprender a lidar com a paz.

Vestida em um robe, Harley abriu a porta do banheiro, ganhando a sala do espaçoso apartamento cedido por Lonnie Machin em nome da “Justiça Real” – fazia parte do aliciamento de Machin para sua causa, embora ela nunca houvesse pedido qualquer tipo de estímulo; faria tudo aquilo mesmo que não recebesse nada em troca.

Sabia, também, que os interesses de Machin para com ela iam além de uma aliada. Ela percebera os olhares que Lonnie lançava em sua direção, que alternavam entre admiração, inveja e cobiça. Tão diferente dos olhares dele, que se revezavam entre adoração e desprezo, embora ambos fossem totalmente irresistíveis, magnéticos…

Impossíveis de serem negados.

A Sinfonia nº3, “Escocesa”, de Mendelssohn saía suave dos alto-falantes da acoplados por todo o apartamento, criando um som ambiente leve. Quinn foi até o aparelho de som e aumentou o volume, tentando fazer com que a música sobrepujasse seus próprios pensamentos.

Ela o percebeu antes de vê-lo. Em um movimento fluido, em nome dos velhos tempos, ela alcançou a lâmina ainda sobre pia do banheiro, brandindo-a contra a grande sombra que se materializara em sua frente.

–Saia do meu apartamento.

–Eu não quero brigar – disse Batman com sua voz gutural. – Eu só preciso conversar com você.

Saia. Do meu. Apartamento.

–Temo que isso não vá acontecer – retrucou o Morcego, um sorriso estranho, plástico, em seus lábios, fazendo Harley estremecer.

–O que você quer de mim?

–Ele está vivo, não é?

–Como? – Perguntou, obviamente confusa.

–O Coringa. Ele está vivo, não está?

A simples menção do nome dele a deixa sem chão. Harley sente o sangue lhe fugir da face, e a terra parece abrir-se para engoli-la viva. Suas pernas falham, fazendo-a se apoiar na parede atrás de si para permanecer de pé.

–Do que você está falando?

–Não se faça de desentendida, Arlequina – ele rosnou, usando um nome que ela não ouvia há quase uma década. O nome que ele a deu, e pelo qual ele a chamava.

–Não sei do que você está falando – ela retrucou, seus olhos dois relâmpagos azuis no escuro de seu apartamento, brilhando como a faca ainda em sua mão. – E nunca mais me chame assim.

Batman cobriu a distância entre os dois com dois passos largos, aproximando seu rosto do dela. Ele cheirava a borracha e… Algo velho, que Harley não soube distinguir.

E eu provavelmente devo estar cheirando a medo.

–Eu tenho visto os sinais. Eu tenho lido entre as linhas. Eu sou um ótimo aluno quando preciso ser, Arlequina, e eu aprendi a jogar o jogo do Coringa – ele se aproximou ainda mais, e agora ela podia ver a respiração dele. – Agora me diga: onde ele está?

Ela respirou fundo discretamente, tentando retomar o controle da situação. Quando sua voz saiu, percebeu que não falava daquele jeito há muito tempo… Talvez por volta de sete anos.

–Por que você acha que eu sei de algo? E melhor! – Ela soltou uma risada forçada – Por que você acha que eu te contaria alguma coisa se eu soubesse?

–Porque você seria a primeira pessoa que ele procuraria – a voz de Batman baixou para um grunhido diabólico. – E porque você sabe o que é bom para você.

O silêncio após a frase de Batman falou mais do que as palavras em si. Harley engoliu em seco.

–Se você realmente acha isso, então não aprendeu nada – os olhos dele pareciam dois poços negros, extremamente dilatados e, de alguma forma, o vazio dali a fazia lembrar-se dos olhos dele. – Se ele estivesse vivo, Batman, a primeira pessoa que ele procuraria seria você.

Ele permaneceu ali perto de seu rosto, arfando como um cão demoníaco.

E ali, na frente dele, Harley Quinn chorou.

Suas pernas finalmente cederam, e ela desmontou em um só movimento, a faca caindo no chão com um baque surdo. Desfazia-se em lágrimas enquanto tentava cobrir seu rosto com suas mãos, soluçando copiosamente. Batman ergueu-se, como se o quebrantamento de Quinn demolisse algo dentro dele mesmo.

Quando ele finalmente falou, após longos minutos, a voz dele ainda era gutural, mas não estava tão áspera quanto antes.

–O que ele fez com você?

Ela ergueu o rosto, chocada com a pergunta.

–Ele… – Ela balbuciou, em meio às lágrimas. – Ele me destruiu, me reduziu a pó, e do pó me fez, alguém distinta, com uma identidade própria.

Batman olhava para ela com olhar oblíquo com tons de piedade.

-Ele abusou de você, Harley.

Ela não discordou.

-Ele me fez quem eu sou.

Ela sentia o olhar dele queimando ora sobre seu corte recente, ora sobre a lâmina no chão. Sem dizer palavra, Batman meneou a cabeça e se virou para partir.

–Espere – Harley suplicou, ainda no chão. Ele se virou com uma agilidade tremenda. – Se descobrir algo, por favor, me conte. Eu preciso saber – voltou a soluçar, incapaz de prosseguir. – Eu preciso saber dele – foi o que conseguiu dizer.

Batman a deixou sozinha, no escuro, aos sons de suas lágrimas e da Sinfonia nº4, “Italiana” – a qual, embora estivesse no mesmo volume de antes, agora parecia ressoar ao longe, indiscernível.

Ali, prostrada, Harley Quinn sentia uma dor indescritível.

Então retomou a faca caída ao seu lado.

batlogo150Hospital Geral de Gotham City, 22h48m

Os corredores asseados cheiravam a limão e a morte, e Lonnie Machin se perguntava se aqueles odores se apegariam a ele; torcia para que não. Aproximou-se do balcão com um largo sorriso, principalmente ao notar que a jovem e bela enfermeira obviamente o reconhecia.

–Olá, boa noite, Susie – cumprimentou ao ler o crachá de identificação da moça. – Eu estou aqui para visitar o paciente Victor Zsasz.

Susie alargou o sorriso quando ele a chamou pelo nome, esquecendo-se de que o mesmo estava estampado em sua roupa.

–Ah, claro, senhor Machin. Pode assinar aqui, por favor?

Não.

–Claro – respondeu, tomando a prancheta. – Como está o quadro dele hoje?

–Não muito bom… – Informou a moça com uma expressão taciturna. – Aparentemente está com uma infecção que não quer ceder. Tememos que ele possa sofrer um choque séptico.

Propício.

–Entendo – Machin respondeu, com a mesma tristeza, logo antes de ensaiar um sorriso enquanto devolvia a prancheta. – Mas tenho certeza que, com pessoas como você cuidando dele – prosseguiu, tomando o cuidado de tocar a mão dela quando devolveu a prancheta – Zsasz ficará bem logo.

A mulher se desmanchou em sorrisos, enrubescendo.

–Ah, bondade sua. Ele está no quarto 9.

Ele ia se virar e seguir seu caminho, porém olhou novamente para Susie. Por que não?

–Ah, poderia me acompanhar? As paredes são todas iguais. Eu me perderia com facilidade – desculpou-se com um largo sorriso. Susie assentiu com felicidade e se pôs a acompanhá-lo em um salto.

–Nós o pusemos em um quarto especial, para que…

Claro, é uma ótima ideia. O cara é assassino em série que mata por diversos motivos – dinheiro sendo só um deles. Por que não dar um quarto de luxo para ele? Respirou fundo, mantendo um sorriso grato enquanto a enfermeira falava ininterruptamente. A hipocrisia, agora, é um mal necessário. Resistir agora para extirpar depois.

–…nós checamos ele de hora em hora…

–Bem, com tudo isto em vista só posso te agradecer – ele interrompeu quando chegaram à porta do quarto. – Muito obrigado, Susie.

Ela novamente se enrubesceu, sorrindo.

–Apenas nosso trabalho, senhor Machin.

As vantagens de ser uma celebridade. Ele assentiu, e ela se retirou.

Zsasz estava deitado na cama, com a respiração entrecortada, embora sem a ajuda de aparelhos, e se virou para Machin assim que ele entrou no quarto.

–Olá, Zsasz – Machin cumprimentou, calorosamente. – Como vai?

–Como… Você… Acha? – Zsasz rosnou, pontuando sua frase com curtas respirações.

–Acho que melhor do que merecia. – Machin retrucou displicentemente – Mas creio que seja uma das vantagens de se tornar um mártir.

Zsasz não respondeu, se contentando em virar o rosto para cima para inspirar melhor, mirando o teto com desprezo.

–Diga-me, Victor – iniciou Machin, pondo-se de pé em um salto e caminhando até o pé da cama, de forma a ficar de frente para o homem -, quantas pessoas você matou?

Zsasz sorriu fracamente, as horrendas cicatrizes no seu rosto dançando com seu movimento.

–Eu nunca matei ninguém.

Machin exibiu um sorriso de tubarão, inclinando-se na direção do leito.

–Não há microfones nem mais ninguém na sala, Zsasz. E eu não tenho interesse algum em te ver atrás das grades.

O assassino fez um movimento lento com a cabeça, o que Machin tomou como assentimento. Um instante de silêncio se interpôs entre eles enquanto Zsasz tomava fôlego para responder.

–Cento e três – respondeu, ainda sorrindo.

Machin retribuiu.

–É um belo número. Quanto conseguiu por cada um, em média?

Estimulado pelo assunto, Zsasz ensaiou um movimento que se assemelhava a um dar de ombros.

–Não sei dizer. Nem fui pago pela maioria desses.

Monstro.

Machin alargou o sorriso.

–Diga-me, Zsasz, o quanto você crê ser precioso para a causa?

–Qual causa?

–Justiça Real – retrucou Machin, exasperado. – A única que realmente importa no momento. Trazer à realidade a justiça que se perdeu entre as máscaras e capas. Colocar a polícia para trabalhar novamente. Derrubar o Batman – Machin fez uma pausa, deixando o homem absorver suas palavras. – O quanto você acha ser importante para esta causa?

–Sua causa é falha – murmurou Zsasz, sem fôlego. – Somente troca um mal pelo outro. Polícia e políticos são estorvos. Principalmente na minha área – e soltou um rosnado, que provavelmente deveria ser um riso. – Tem que deixar a entropia o curso.

–Ah, mas eu sei. E a hora vai chegar em que a limpeza vai alcançar a polícia e o governo também. A verdadeira justiça vai alcançar todas as esferas, cada uma em seu tempo. Mas você não respondeu minha pergunta.

Zsasz ficou alguns instantes em silêncio, embora Machin não conseguisse distinguir se era para pensar ou simplesmente respirar.

–Sou vital – respondeu finalmente – Eu sou o seu marketing. Eu sou seu mártir.

Machin bateu suas palmas com força, animado.

–Exatamente! Exatamente o que eu penso – Machin continuou assentindo com a cabeça enquanto se movia pelo quarto. – Existem causas que são maiores do que nós mesmos, e “Justiça Real” é uma delas. Sei que a lidero mas, se me dissessem que precisaria resignar das minhas funções para que outra pessoa cumprisse o objetivo, eu o faria.

Machin parou, ficando em silêncio por alguns instantes. Seu rosto se contorcia em dúvidas, como se questionasse o que acabara de dizer.

–De qualquer forma, mártires são formados para que a causa se torne eterna – ou ao menos relevante por mais tempo. Sendo assim, eu concordo com você – Machin finalmente parou de andar pelo quarto. – Só há uma pequena falha em sua lógica.

Zsasz o olhou, subitamente tenso, enquanto Machin se aproximou com um sorriso forçado.

–É preciso estar morto para ser um mártir.

Os olhos negros e profundos de Zsasz se arregalaram enquanto ele tentava alcançar o botão para chamar a enfermeira, porém Machin já estava sobre ele, munido do travesseiro que apoiava o lado de seu corpo, pressionando seu rosto. Tentou gritar, mas nenhum som lhe escapava pela garganta ressecada. Ainda assim, as mãos tentavam arranhar, e as pernas buscavam escape, sem sucesso.

O estado débil de Zsasz não permitiu que ele lutasse por muito tempo. Não tardou para que seus membros parassem de se bater, e que a máquina de eletrocardiograma emitisse um silvo agudo e constante.

Machin soltou o travesseiro, reacomodando-o ao lado do corpo de Zsasz. Sentia uma perturbação enorme pelo que acabara de fazer, mas expulsou-a com o mesmo movimento de mão que alisou seu terno.

Um mal momentâneo por um bem prolongado.

Lonnie Machin respirou fundo antes de começar a gritar desesperadamente por uma enfermeira, lançando-se à porta.

Susie foi a primeira a aparecer, com uma expressão assustada.

–Senhor Machin? O que houve?!

O início do fim.

–Victor Zsasz – respondeu, aparentemente sem fôlego, sua face uma máscara de desespero. – Acho que está morto.

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