Dia 5

Click.

–Olá, você ligou para Bruce Wayne. Favor deixar recado após o sinal.

Beep.

–Olá, Bruce? Aqui é a Doutora Kerman. São… Duas da tarde do dia 28 de março, quinta-feira. Estou ligando para saber por que você não veio à nossa sessão ontem. Fico preocupada com isso, porque sou obrigada a informar o seu não-comparecimento à Corte, e você sabe como eles são chatos e corujas em relação a isso. Por favor, me retorne o mais rápido possível para remarcarmos esta sessão e alinharmos tudo – como fizemos quando você não pôde vir na última segunda-feira, e tivemos nossa sessão na terça-feira.

Silêncio.

–Estamos fazendo progresso, Bruce, e metade das sessões já passaram. Não desista. Até logo.

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Dia 5

Mansão Wayne, 17hrs

Alfred desceu as escadas, receoso. Bruce, desde que voltara de onde quer que estivera na noite passada, não falara com ele, trancafiando-se na Caverna, digitando freneticamente no computador. Virara a noite fazendo isso, e ainda não dissera palavra – e também não comera.

Por isso Alfred estava ali, em frente à porta da Caverna, pela primeira vez ponderando se deveria se aproximar de Bruce Wayne: o homem preso na caverna.

O garoto preso no poço.

Alfred respirou fundo e abriu a porta. Ainda nas escadas, o mordomo anunciou sua presença.

–Patrão Bruce, receio que o senhor precise comer algo – disse em um tom plano e calmo. – Trouxe uma sopa de miúdos para o senhor, para manter algo leve em seu estômago.

Bruce nem ao menos se virou. O som de seus dedos golpeando o teclado reverberava pelas paredes, assim como um zumbido constante e ininteligível.

–Patrão Bruce? – Repetiu Alfred, preocupado.

Aproximou-se vagarosamente, e aos poucos percebeu que o zumbido era Bruce sussurrando continuamente para um gravador em sua mão.

–…dia 3 de março. Dia 25 de março, segunda-feira: chegada do criptex e ataque de Victor Zsasz. Dia 27 de março, quarta-feira: segunda vítima de Zsasz, e segundo confronto com ele.

–E consulta com Doutora Kerman que o senhor não foi – Alfred interveio, ainda com voz suave. – Patrão Bruce?

–Neste dia reparei o J nas costas de Zsasz. Sendo assim, dois sinais do Coringa em três dias. Zsasz foi liberado no dia seguinte, com ajuda de alguma esfera de poder superior. Estaria o Coringa infiltrado no governo de Gotham?

As palavras balbuciadas por Bruce assustavam Alfred, mais pelo modo rápido e doentio que eram ditas do que o que era dito em si.

–Bruce? – Chamou Alfred mais uma vez, tocando o ombro do garoto no poço.

Somente então Bruce pareceu notar sua presença e virou-se para o mordomo. Os olhos estavam injetados, vermelhos, e suas mãos e lábios tremiam involuntariamente. Bruce olhava para ele, mas não parecia vê-lo.

–Santo Cristo, o que você tem?! – Exclamou Alfred, pondo a sopa sobre a bancada e tocando o rosto de Bruce. A pele estava fria e úmida, como se várias camadas de suor tivessem secado ali. Alfred procurou uma febre, mas nada parecia justificar o estado de seu patrão.

–Tem peças faltando, eu sei que tem – Bruce rosnou, sua boca se esforçando para formar sons coerentes. – Ela não me contou tudo. Ela não me contou tudo – repetiu e pôs-se de pé em um salto, caminhando em direção ao seu uniforme.

Alfred mais uma vez se limitou a assistir enquanto Batman saía da Caverna em plena luz do dia, sem levar o Batmóvel. Assim que o Batman saiu de seu campo de visão, as pernas do mordomo fraquejaram, e ele se sentou sobre a cadeira na qual seu patrão estivera até há pouco.

Estou velho demais para isso. Não estou conseguindo levar esta situação, pensou amargamente, vislumbrando uma possibilidade de futuro que nunca havia lhe ocorrido. Mas isso ficaria para depois. Agora tinha de fazer algo para parar Bruce imediatamente. Não podia ficar esperando por nada nem ninguém.

Primeiro tinha de descobrir o que diabos causara aquele efeito em Bruce, para então extirpar a variante do cenário e trazer o patrão de volta ao normal. Descobrir que parte de seu transtorno ilusório era verdade e quem enviara o criptex que começara tudo isto estava em segundo plano; precisava de um Batman efetivo para fazer qualquer coisa a respeito.

Respirou fundo uma última vez antes de se levantar resolutamente e subir os degraus até o interior da mansão. Mesmo somente atravessando o segundo andar do hall podia sentir o cheiro do guisado que a cozinheira cega, Christine, fazia na cozinha. Alcançou o quarto de Bruce em rápidas passadas.

Chegara a hora de retirar o garoto do poço mais uma vez.

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Distrito da Prefeitura, 17hrs

A batida na porta a despertou de um torpor leve sob o qual se deixara cair enquanto assistia à televisão. Pensou em atender a porta da forma que estava, camiseta e short de algodão, mas lembrou-se que agora era uma figura pública – sem disfarces, inclusive -, e que poderia ser ruim para sua imagem caso fosse alguém da imprensa. Foi até o banheiro e vestiu seu roupão antes de retornar à sala, apenas para ver que era Lonnie Machin que a esperava na porta.

Mesmo pelo olho mágico, notou que ele ainda usava a roupa que vestia no discurso que proferira próximo à hora do almoço sobre a morte de Victor Zsasz; era um casaco preto jogado sobre o terno igualmente escuro, quebrado somente por uma gravata lilás sobre uma camisa azul-clara. Ele segurava uma garrafa e sua face era uma máscara vítrea – a qual se abriu em um sorriso, que Harley julgou ser plástico, assim que ela abriu a porta.

–Cheguei em uma hora ruim? – Perguntou, oferecendo a garrafa, a qual Quinn agora via que era de espumante de qualidade duvidosa. Ela deu de ombros.

–Eu só estava vendo televisão – ela disse, e esperou ele falar a que viera, se recusando inicialmente a convidá-lo para entrar. Ele a encarava, os olhos ansiosos, e Quinn percebeu que não haveria saída. – Por favor, entre.

O sorriso dele alargou-se ainda mais enquanto ele se moveu com certa agilidade para dentro do apartamento, murmurando um “obrigado”.

Quinn não gostava de Lonnie Machin. Ela somente se aliara à ele porque compreendia o objetivo dele, e compartilhava o mesmo desejo de tirar o Batman de seu pedestal, acabar com o poder do vigilante e pô-lo atrás das grades – ou a sete palmos. Se pudesse escolher, Harley não se envolveria com este sujeito.

Mas se havia uma habilidade que Harley Quinn desenvolvera era identificar nas mãos de quem estava o poder; ela sabia que não poderia alcançar suas pretensões se não auxiliasse Machin naquele momento.

–Gostei do que fez com o lugar – disse ele, andando calmamente pela sala, com os braços atrás das costas.

–Obrigada. – Ela respondeu, ainda confusa quanto aos interesses dele naquela visita. – Posso te ajudar de alguma forma?

Ele parou de andar por um instante e virou-se para sorrir para ela, um sorriso com dentes demais, como um tubarão, ao ponto de fazer Harley se questionar se Lonnie parecia tão perigoso assim três dias atrás.

–Você já me ajuda imensamente, doutora Quinn. Mais do que jamais poderá compreender – ele disse, e se pôs a caminhar novamente. – Eu tinha um conceito, um conceito que tentei vender por anos, sem sucesso. Você veio no momento certo para dar um rosto a uma luta que, até sua chegada, era ideológica. Você e Victor Zsasz tiraram definitivamente o embate do campo das ideias e o trouxeram para uma aplicação prática.

Até a oratória dele melhorou, ela pensou. O poder da mídia.

–Eu fiz o que acreditei ser correto – ela respondeu, não sem rispidez. – E creio que Zsasz fez o mesmo – ela o viu assentindo com a cabeça – Pena que ele não pôde continuar a fazê-lo.

Machin parou por um breve segundo, porém não chegou a olhá-la desta vez.

–É uma pena – repetiu com uma voz soturna. – Mas creio que chegou a hora de fazer Batman pagar por todos os seus crimes – Machin foi até a janela, olhando as ruas que se enveredavam a sua frente. – As coisas estão no ponto certo pela primeira vez em anos.

–Como assim?

–A Marcha Contra o Batman está confirmada para acontecer na segunda-feira, um dia após o aniversário de sete anos da morte do Coringa – ela sentiu os pelos de sua nuca eriçarem ao ouvir o nome sendo dito tão levianamente. – Estou estimando que mais de meio milhão de pessoas irá ao evento, mais do que o necessário para movimentar o legislativo. Uma vez que o Batman for ilegal, Gordon será destituído e um novo comissário caçará o Batman de verdade, e ele será obrigado a agir contra a polícia, convertendo à nossa causa mesmo os mais reticentes – a voz dele parecia distante, e Quinn considerou se ele estava falando consigo mesmo. – Ele será o maior vilão que Gotham já viu.

–E quem será o heroi a derrubá-lo?

–Não precisaremos derrubá-lo, doutora Quinn – ele se virou para ela, de costas para o parapeito da janela, o sol alaranjado do crepúsculo se desenhando ao seu redor. – Não se engane, Harley – posso chamá-la de Harley? – Questionou ele subitamente com açúcar na voz.

–Doutora Quinn – ela retrucou secamente.

–Não se engane, doutora Quinn – Machin prosseguiu, sem se fazer de rogado -, o Batman já caiu. O que vai acontecer agora é que ele vai sair de cena.

–Não lhe interessa saber quem é o homem por trás da máscara?

–Sinceramente, não – ele retrucou, vindo e sentando-se no sofá de Harley. – Meu esforço tem sido no sentido de derrubar o mito. Não me interessa humanizar o Batman agora. Poderia ser muito bom para nós se ele fosse um gângster ou algo que o valesse, mas não podemos correr o risco de ele ser um filantropo ou algo assim. Não precisamos que o povo interprete mais nada. Eles já sabem e entendem as coisas como é necessário que entendam. Todos os eventos estão em suas devidas posições. Agora só precisamos assistir seus desenrolares.

O silêncio de Machin só não era mais constrangedor do que a forma que ele a olhava.

–Você ainda não disse a que veio.

–Eu vim lhe agradecer, simplesmente – ele disse, dando de ombros, e voltando-se para a televisão, onde a apresentadora falava alguma coisa sobre a situação econômica de Metropolis. – Não teria conseguido nada disso sem a sua ajuda e a de Zsasz, que Deus o tenha.

A nota de ironia na frase dele não passou despercebida a Harley.

–Você o matou, não foi?

Machin sustentou o olhar de Harley sem hesitar nem piscar, impassivelmente.

–Como foi passar tanto tempo com o Coringa?

A mudança súbita de assunto tirou o chão de sob os pés de Harley, que lutou para se manter inalterada. Sabia que estava jogando um jogo perigoso.

–Quanto tempo foi? – Ele prosseguiu antes que ela pudesse responder. – Cinco anos?

–Seis anos – três meses. Uma semana, e quatro dias. – Foram seis anos.

Ele soltou um assobio de surpresa e se voltou para a televisão novamente.

–Como foi passar tanto tempo com um psicopata tão notável?

Ela não respondeu, e Machin riu.

-Por favor, me conte: como era assistir enquanto ele torturava, matava e fazia aquelas barbaridades? Quero muito saber, doutora Quinn.

–Ele não…

–Não venha com merda para cima de mim, Quinn – ele interrompeu como um chicote, sem mais nada da amabilidade presente anteriormente. – Você sabe tanto quanto eu que o Coringa era um depravado doente. Você sabe melhor do que eu, na verdade. Afinal, como você ressaltou, você que é a doutora em psicologia no recinto – o sorriso de tubarão dele brilhou sob seus lábios novamente. – Diga-me, você ajudava ele ou ficava só de telespectadora? – Os punhos de Quinn cerraram-se involuntariamente. – Ah, você participava, não é?

Machin se pôs de pé e, lentamente, se aproximou de Quinn.

–Com qual parte você colaborava, doutora? – Estava a alguns passos dela, ainda sorrindo. Quinn andava para trás, suas mãos tateando a mesa atrás de si a procura da garrafa de espumante. – Você era aquela que capturava as vítimas, a que quebrava suas pernas, ou a que – ele estendeu a mão, tocando o queixo dela – jogava ácido no rosto delas?

A mão dele se firmou em volta do queixo de Quinn, enquanto a mão dela se firmava em torno do gargalho da garrafa. Ele se aproximou com agilidade e violência.

A janela explodiu em milhares de estilhaços dourados de crepúsculo.

Quinn aproveitou a distração para correr em direção a porta, quando duas mãos negras a ergueram pelo ombro, pressionando-a contra a parede.

–Onde você pensa que vai, Arlequina?

–O que você está fazendo aqui?! – Ela rosnou, debatendo-se para sair das mãos de Batman. – Eu já te falei tudo o que sei! Me solte, agora!

Ao invés disso, ele a ergueu ainda mais, levantando-a acima de sua cabeça, ainda prensada contra a parede.

–ONDE ESTÁ O CORINGA?!

A garrafa de espumante estourou contra a lateral da cabeça de Batman, que virou-se lentamente, deixando Quinn cair ruidosamente no chão, para encarar seu atacante. Lonnie ainda segurava o que restara da garrafa como uma arma, com as pontas do caco brilhando na direção de Batman.

–Agora você está acabado, Batman – riu-se Lonnie. – O quão burro você é?! Você invadiu o apartamento e agrediu sua maior vítima! Me diga, você é burro ou só maluco mesmo? – E gargalhou novamente.

De forma mais curta, entretanto.

Batman tomou-o pelo pescoço, arremessando-o contra a porta e lançando-se atrás de Lonnie logo em seguida. Pousou com todo seu peso em cima dele, imobilizando-o.

–Você também está envolvido, não é? – Batman disse, sua voz assemelhando-se ao rosnado de um cão. – Você faz parte, todos vocês fazem parte, estão trabalhando com o Coringa nisso. Não é? NÃO É?!

Batman sacudiu Lonnie, chocando-o contra o chão, e subitamente ele já não achava tanta graça da situação.

–Eu não sei de nada disso! Eu não sei! – Lonnie gritou, desesperado. Batman puxou-o em direção ao seu rosto, sua respiração condensando a alguns centímetros do rosto dele na noite recém-caída de Gotham. – Juro por Deus, não sei!

Batman ouviu um tilintar frio – e notou que Harley não estava mais na sala.

–Quinn – Batman murmurou, deixando Machin no chão e indo verificar os outros ambientes da casa.

Não precisou procurar muito.

Harley avançou sobre Batman com uma adaga de lâmina longa, buscando o rosto dele. Batman desviou com agilidade, tentando golpear o lado de Quinn, que conseguiu se esquivar do contra-ataque com um salto lateral.

Batman prosseguiu com uma série de socos, que Quinn conseguiu desviar por pouco; percebeu que enferrujara com o tempo, e sua agilidade diminuíra. Ainda assim, conseguia escapar dos golpes de Batman. Quando ele finalmente desacelerou, ela avançou novamente com a adaga em direção do rosto de Batman.

Ela demorou uma fração de segundo para notar que era uma armadilha.

Em um movimento único, Batman golpeou o punho de Harley, imobilizando seu braço e obrigando-a a largar a arma. Seguiu com uma cotovelada no plexo solar de Quinn e empurrou-a contra a parede.

–Ainda não é seu dia, Arlequina.

–Eu não sou mais a Arlequina! – Gritou Harley, tentando se desvencilhar de Batman.

–É melhor você estar falando a verdade, porque se eu descobrir que você está auxiliando ele a fazer isso tudo eu juro por Deus, Arlequina, eu vou te caçar e eu vou te matar na frente dele.

Harley não tinha reação. Após anos de embates com Batman, nunca o vira proferir uma ameaça, muito menos uma ameaça de morte. Ele está insano, ela percebeu subitamente. Ele conseguiu. Ele precisou morrer, mas ele conseguiu. Ele enlouqueceu o Batman.

–Ele venceu. Ele venceu, não é? – Quinn perguntou, mas não precisou esperar para ouvir a resposta. Ela conhecia aquele brilho ensandecido no olhar. Batman a soltou, recuando e indo em direção à janela. – Ele venceu! Ele te venceu! – Quinn ria agora, um riso incontido, preso por anos. – Ele venceu!

Batman tirou algo de seu cinto, engoliu e grunhiu algo ininteligível enquanto ia para o batente. Antes de sair, Batman virou-se, olhando Lonnie, ainda caído no chão, chocado demais para esboçar qualquer reação.

–Se afaste – disse somente, lançando-se janela afora.

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Gotham Estates, 18hrs

Ela olhava pela janela com complacência, vendo a noite se estender por Gotham como um lençol negro. Bebericou de sua taça de vinho recém-servida, pensando como o final de semana cairia bem, depois destes últimos dias.

Parecia que todos os pacientes haviam tirado a semana para piorarem. Arnold Etchison voltara a dizer que fizera bem em matar sua família, Eric Needhan dizia estar ouvindo as aranhas do Arkham chamando pelo seu nome, Lazlo Valentin atacara um enfermeiro com promessas de fazê-lo perfeito, Edward Nigma gritava há dias que o Batman o havia visitado, e mesmo Bruce Wayne sumira do mapa recentemente. Esperava que tudo se normalizasse nos próximos dias, embora tudo ainda estivesse de acordo com o planejado.

A noite subitamente lhe pareceu fria, e ela se levantou para fechar a janela, somente para ser interrompida pelo telefone que soou, estridente, cortando o ar ao redor.

–Kerman? – Ela disse com uma voz indisposta.

–Doutora Kerman? Falo da Mansão Wayne, me chamo Alfred Pennyworth, como vai? – A voz parecia idosa e cansada, mas não houve pausa entre uma frase e outra – Gostaria de confirmar… Você que recomendou o Dercaloxes para o senhor Wayne, certo?

–Olá. Sim, como relaxante muscular, para que ele possa dormir melhor. – Ela respondeu, sem titubear.

Alfred permaneceu em silêncio por um instante, olhando para a cortina da cozinha da mansão, como se a resposta de suas perguntas estivessem escondidas ali atrás.

–Por quê? – Perguntou a doutora Kerman do outro lado da linha – Ele está tendo algum efeito colateral?

Até que ponto Bruce compartilhou com ela? Logo balançou a cabeça, afastando o pensamento. Se o patrão houvesse dividido o segredo dele com Kerman, ele teria contado isso para Alfred.

Certo?

–Não, está tudo bem – ele respondeu, com relutância – Só queria confirmar, visto que o remédio parece ser forte. Mas reportarei se houver alguma reação digna de nota. Obrigado, doutora Kerman, boa noite – Alfred disse, emendando uma frase na outra, sem dar tempo para Kerman responder, e desligou.

Não fora difícil achar onde Bruce deixara o remédio, visto que ele não escondera. Considerando que o frasco ainda estava dentro da gaveta, Alfred ponderou que ele deveria estar levando comprimidos avulsos no cinto de utilidades.

Enquanto caminhava até o banheiro, Alfred cogitava suas opções. Seu patrão estava obviamente afetado de forma profunda por aquele químico. Entretanto, até que ponto o remédio estava deixando Bruce naquele estado ou evitando que ele ficasse ainda pior? Afinal, Bruce Wayne enfrentara muito na vida – mais do que qualquer ser humano deveria ser obrigado a enfrentar – mesmo nem tendo chegado ao meio da vida.

Ao menos era o que Alfred esperava.

E se Bruce tivesse… Surtado? E se o remédio fosse o último fio de sanidade que restava à Bruce Wayne? O que dizer de um homem que se vestia de morcego e que saía em missões à noite, atacando marginais e pessoas clinicamente ensandecidas? Alfred podia confiar em sua saúde mental?

Até que ponto Batman havia destruído Bruce Wayne?

Quando deu por si, Alfred se percebeu no banheiro. Foi quando notou que já tinha sua resposta.

De forma que não pestanejou antes de lançar o conteúdo do frasco fora e dar a descarga.

Não confiava no Batman, mas confiava em Bruce Wayne.

Sabia que podia fazê-lo.

Ainda assim, enquanto os comprimidos desciam no rodamoinho em direção ao esgoto, Alfred apertou os olhos nervosamente.

Deus nos proteja.

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