Dia 6

Mansão Wayne, 01hr

Os vidros tremeram antes mesmo da cadeira acertar seu alvo. A luz baixa lançava sombras macabras que bruxuleavam nas paredes. Um vento frio parecia vazar por frestas invisíveis e tornar todo o quarto uma cripta gelada.

Bruce Wayne não sentia frio.

Bruce Wayne não sentia nada, a não ser dor, enquanto revirava os móveis, desesperado, buscando o frasco de Dercaloxes.

Possuía ainda alguns comprimidos no cinto do uniforme – que já usava ininterruptamente há muito tempo -, porém mesmo estes estavam escasseando, e ele voltara para reabastecer.

Apenas para achar a gaveta vazia.

Sentia uma ansiedade enorme se assomar dentro de si, como uma fera incontrolável que espreitava a ele mesmo. Suas mãos tremiam, inseguras, enquanto movia a escrivaninha, após arremessar a cadeira contra a parede.

Do ácido viestes…

A voz parecia vir atrás de si. Ele virou-se rápido, e viu o Coringa, somente para não vê-lo novamente no instante seguinte.

Não. Não viera do ácido, e não voltaria para lá. Ele viera do poço. Ele viera do escuro. Nascera no poço, entre morcegos e escuridão. Ele não precisava de ajuda. Podia muito bem sair daquilo, sem maiores problemas. Só precisava do Dercaloxes para limpar a sua mente e pegar o Coringa.

O Coringa. Vivo e ativo. O maldito Coringa, maldito! O criptex enviado para Bruce Wayne em nome de Batman; a letra J nas costas de Victor Zsasz…

O sangue no criptex. Jerome Jenkins.

Jerome. Jenkins. As letras para Joker também estavam naquele nome. Seria Jerome o nome do Coringa? Não. Seria muito óbvio. Ele não funcionava assim. Não funcionava, simplesmente. Devia ser algo mais.

Ele estava em toda parte. O Coringa o provocava, o torturava, o cutucava com estas pistas ridículas. Ele estava se aproximando, estava fácil, estava ao alcance da mão. Ele só… Precisava…

O Dercaloxes não estava em lugar algum.

Frustrado, Bruce gemeu, lançando a cama para o lado, ainda sem sucesso. Talvez tivesse levado para a Caverna.

Pela primeira vez desde que assumira o manto de Batman, Bruce correu pela Mansão em seu uniforme, disparando até o relógio para acertar a hora e entrar na Caverna.

Lançou a última meia dúzia de comprimidos na boca, pensando em o que precisaria fazer para conseguir uma prescrição médica para mais Dercaloxes. Mas aquilo teria de esperar até a manhã, quando médicos voltassem a consultar. Não serviria. Ele precisava de Dercaloxes imediatamente. Uma sombra atrás de si, e ele novamente viu o Coringa, que chegou a lhe estender a mão e um sorriso de escárnio antes de desaparecer.

Do ácido, Morceguinho. Viemos do ácido, nós dois. E para o ácido…

Uma lufada de ar gelado o recepcionou, e seu hálito se tornou vapor a sua frente. Era uma noite fria de abril, e não parecia que a primavera estava chegando. Bruce não se deteve neste pensamento, lançando-se pela Caverna, olhando o chão e chegando até a bancada. Moveu objetos ao léu, buscando qualquer sinal do comprimido, quando seus olhos foram capturados por um cartão em cima da bancada.

“Doutora Joanne Kerman – Psicóloga & Psiquiatra”

Joanne Kerman.

Jo Kerman.

Joker.

O Batman guardou o cartão no cinto, na noite fria da Caverna. Descobrira o plano e a identidade do Coringa, o último resquício que o ligava a realidade, o fio que o permanecia flutuando sobre a cabeça de Gotham, como um morcego demoníaco que insistia em não morrer.

Porém agora chegara a hora.

O fio seria rompido.

Estava na hora do Coringa morrer de uma vez por todas.

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Distrito da Prefeitura, 01hr

Ele conseguira. Ele vencera.

Sete anos haviam passado, e agora tudo fazia sentido. Não apenas sentido em seu torpor irracional, mas um sentido verdadeiro. O que ele falava não eram palavras ao vento. Todos os seres humanos da Terra são catástrofes iminentes, trens fora de controle, todos chocando-se entre si, chocando-se em si.

Qualquer um poderia ser o próximo acidente.

O Batman podia ser o próximo acidente.

Ele venceu. Ele estava certo o tempo todo.

Ela passara os últimos sete anos lutando com o lado que o… Coringa inserira dentro dela; todo o caos, a desordem e a destruição que ela vira nele, que, como por osmose, foram absorvidos por ela, se tornaram seus adversários diários por sete longos anos.

E agora ela percebia que, se o Batman não pudera resistir, ela também não poderia. Lutara tanto… Para quê?

Não há equilíbrio entre caos e ordem, pensou enquanto se dirigia ao seu armário, empurrando ternos e vestidos de verão para o lado, quando o caos destrói completamente a ordem. O Batman estava caído. Era o fim da ordem.

–Então talvez seja hora de sucumbir ao caos – ela disse, em uma voz alta e letárgica para ninguém, enquanto tirava de seu armário uma caixa grande e a colocava em cima da cama.

Dentro dela estava uma calça de couro, assim como um top, em vermelho e branco, com motivos de losangos vermelhos na parte branca, e vice-versa.

Dentro dela estava a Arlequina.

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Mansão Wayne, 01hr

Os cabelos longos e negros caíam despenteados até seus ombros, sob o capacete, enquanto a moto de Tim Drake adentrava a propriedade dos Wayne. Apesar da gravidade da situação que o trazia de volta, não conseguiu afastar o sentimento nostálgico que assomava dentro de si. Fazia anos que não pisava ali; o rompimento abrupto e traumático com a Mansão pôs uma barreira entre Drake e sua vida em Gotham que ele cria ser intransponível.

Até que Alfred o telefonara.

No início ignorara as ligações, mas quando estas persistiram e se tornaram mais frequentes, Drake finalmente cedera e atendera. Nisso já havia se passado um dia do primeiro telefonema.

Tempo demais.

Enquanto deixava a moto na entrada da Mansão e irrompia porta adentro, ouvia a voz de Alfred ressoando em sua mente.

Tim, por favor, nos ajude. Bruce está fora de controle.

As últimas cinco palavras foram as mais aterrorizantes que jamais ouvira na sua vida. Partira imediatamente para Gotham.

Isso fora há 12 horas. Entrava agora na Mansão, apenas para encontrar Alfred estático na cozinha, pálido como Drake jamais o vira.

–Tim! Graças a Deus você chegou – Drake se aproximou e o abraçou, percebendo também como Alfred parecia ter envelhecido vinte anos desde a última vez que o vira. Parecia mais magro, mais frágil, mais… Mortal.

–Olá, Alfred – disse Drake, estranhando este nome que já não dizia há algum tempo, e estranhando ainda mais a forma que parecia natural estar de volta – O que está havendo?

Alfred respirou fundo, forçando-se a erguer o queixo.

–Vamos à Caverna. Eu vou te explicar a história.

Drake escutou atônito enquanto Alfred passava pelos acontecimentos dos últimos meses; o incidente no museu, o julgamento, a sentença de acompanhamento psicológico, o criptex e a psicose com a figura do Coringa e, finalmente, o Dercaloxes e o espiral caótico que se seguira desde então. Embora Alfred tivesse resumido a história, deixando os pontos mais agressivos de Bruce de fora, foi o suficiente para que Drake percebesse a gravidade da situação.

–Meu Deus, Alfred, se eu ao menos soubesse…

–Você teria me atendido antes? Achei que estava muito ocupado sendo… Quem mesmo?– Ralhou Alfred, com uma expressão grave.

–Anjo Vermelho – murmurou Drake, desconsertado.

–O fato é que agora o Dercaloxes acabou, e esta noite é crucial, pois ele deve começar a entrar em desintoxicação em breve. É a fase mais preocupante – Alfred prosseguiu, sentando-se ao computador – e possivelmente a mais… – Agressiva ­– Agitada do processo. Precisamos trazê-lo de volta para a mansão.

–Tem alguma ideia de onde ele esteja?

–Não – murmurou Alfred – Eu havia instalado um localizador na máscara há alguns anos atrás, quando o Pinguim o pegou numa armadilha e quase o matou. Não sei se ainda funciona.

Alfred começou a digitar freneticamente enquanto Drake se limitava a assistir. Sentia como se houvesse uma mão apertando seu coração, e ele reconhecia o gosto amargo em sua boca. Eu não sou culpado, disse para si mesmo, nem responsável pelo Bruce. Eu tinha que ir. Isso, entretanto, não era o suficiente para silenciar a voz que lhe dizia que Bruce também não era responsável por ele quando Alfred o trouxe para ser o novo Robin.

Sem mãe e com um pai paralítico que o ignorava, a Mansão fora a coisa mais perto de um lar que ele tivera.

E, quando seu pai morrera, fora a única coisa que ele tivera.

Ainda assim, magoara-se com fantasmas e memórias e, em um rompante, fugira no meio da noite, deixando tudo para trás – quando, num último olhar para a Mansão, vira a silhueta de Bruce na janela, sem fazer nada para impedi-lo, o que na época só reforçara sua decisão.

Agora se via obrigado a voltar e, como uma onda, também voltava a sensação de que, se tivesse sido maduro e ficado na Mansão, nada teria acontecido.

Seu pensamento foi interrompido pela percepção de que Alfred parara subitamente de digitar. A mão do mordomo repousava sobre um espaço vazio qualquer sobre a bancada.

–Conseguiu localizá-lo?

–Eu não preciso – Alfred balançou a cabeça, angustiado. – Eu sei onde ele está.

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Gotham Estates, 02hrs

O assobio a despertou.

A noite estava fria, e Joanne Kerman fechara todas as janelas antes de ir deitar, somente deixando a de seu quarto entreaberta para alguma circulação de vento. Cobrira-se com duas colchas que a protegiam da temperatura que caíra subitamente.

Agora, deitada, se perguntava, sob o edredom acolhedor, que diabo seria aquele barulho.

Olhou para a janela do quarto; o som definitivamente não vinha de lá. Respirou fundo, juntando coragem para enfrentar o frio, e se levantou, puxando as cobertas sobre e atrás de si.

Caminhou para fora do quarto em passos curtos, trêmula. A noite era tão visualmente fria quanto sua temperatura; a lua estava pálida sob uma camada de nuvens cinzentas, e as estrelas pareciam ter perdido metade de seu brilho. A noite nebulosa parecia saída direto de um filme noir, e Joanne imaginou se seria muito exagerado usar o sobretudo que descia até os pés, que trouxera da Alemanha, no dia seguinte.

Alcançou o hall em mais alguns momentos, procurando a origem do som, e logo descobriu. A janela da sala estava aberta com um espaço de um palmo, e o vento silvava ao passar pela abertura.

O que Joanne achou estranho, visto que tinha certeza de ter fechado todas as janelas antes de deitar.

Mais uma vez ela encostou a janela, desta vez passando o trinco, e voltou para o quarto.

Uma sombra a seguiu.

E ele finge viver a vida normalmente.

O pensamento acompanhado de um ódio incontrolável se assomou nele enquanto assistia o Coringa passar calmamente em sua frente, olhar em volta ressabiado, e fechar a janela. Quando ele se virou, pôde ver o sorriso macabro e o olhar insano, que enchiam o local com sua pestilência.

Demônio, pensou Batman. Chega.

O Coringa, vestido com um pijama claro, não viu quando Batman se aproximou dele por trás.

Somente sentiu o primeiro chute, quando este o atingiu na base da coluna.

Batman gritava como um bárbaro ao saltar sobre o vilão. Derrubou-o ainda no primeiro golpe, paralisando-o no chão, e desferindo socos incessantes na face do Coringa a sua frente.

E ele ria.

Mesmo sob a força de todos aqueles golpes no rosto – na verdade, a cada golpe no rosto -, o Coringa ria mais e mais, sua feição distorcida por uma expressão psicótica. Batman já gritava, desesperado, desferindo golpe atrás de golpe, soco atrás de soco, e uma névoa parecia se formar em sua visão; parecia que o efeito de seus baques estava sendo sentidos primeiro nele mesmo.

A ira escorria com o suor pelos seus poros profusamente, e mesmo o ódio derivado da morte de Jason Todd voltara, após tantos anos, como um maremoto incontrolável, e tudo parecia sair de controle, e ele estava fora do controle, porque o Coringa estava no controle. Mas quem batia? Quem apanhava? Ele estava apanhando do Coringa? Como o Coringa podia bater nele?

Não haveria mais luta. Chega!

Batman tirou uma de suas lâminas de lançamento do cinto, segurando em direção ao rosto do Coringa.

A janela explodiu em vidro, e um chute o atingiu no plexo solar. Batman se desequilibrou, sendo lançado para trás pelo impacto, chocando-se contra a parede.

Tim Drake, em seu uniforme, respirava pesadamente após atingir seu antigo mentor. Estava focado em simplesmente derrubá-lo e levá-lo de volta para a Caverna.

Até que olhou para Joanne Kerman, e soube que nada mais seria o mesmo.

Seus joelhos fraquejaram ao olhar para o estado da doutora, caída entre lençóis, como um bezerro imolado em uma manjedoura. Não a conhecera antes, mas seu rosto estava obviamente desfigurado, e alguns ossos de sua face com certeza estavam fora do lugar. E havia sangue; muito sangue cobria principalmente a parte inferior do rosto de Joanne, e ensopara sua camisa clara de pijama. Estava desacordada e…

O Batman o acertou na altura do peito, voando sobre ele, e os dois foram lançados janela afora, mergulhando na escuridão fria da noite de Gotham. Batman esmurrava Drake, que aparava os golpes como podia, enquanto o chão se aproximava absurdamente rápido, buscando-os para um toque final.

Batman parecia não notar a queda. Saliva e sangue escorriam de seus lábios abertos em um grito animalesco, e sua máscara também estava suja – embora Drake percebesse, com asco, que não saberia dizer de quem era o sangue. Na emergência da situação, desferiu uma joelhada no estômago de Batman, o suficiente para fazê-lo fraquejar. Drake então rodou seu corpo, posicionando-se por cima durante a queda, e, num movimento rápido com os ombros, emitiu o impulso necessário para que sua capa se retesasse.

A capa aparou a queda somente o suficiente; o Anjo Vermelho e Batman caíram em um baque seco. Demoraram somente alguns instantes para retomarem o fôlego – e Batman o fez antes de Drake. Lançou sobre ele uma chuva de socos na altura do peito, assim como chutes e joelhadas. Drake conhecia os golpes; Bruce Wayne lhe ensinara todos eles. Aparou-os com destreza, desviando com movimentos fluidos e ágeis.

Drake percebeu com alívio que, embora tivesse menos experiência que Bruce, o Batman estava cansado.

Mesmo assim, após esquivar-se de um soco que mirava a boca de seu estômago, Drake foi pego por um chute rotatório de Batman, que o dobrou ao meio. Batman o ergueu no ar, arremessando-o contra a fonte no meio do pátio impiedosamente. Vermelho sentiu suas costelas batendo contra o concreto, e um jato de sangue foi expelido pela sua boca, tingindo a água da fonte.

Ele percebeu Batman se aproximando por trás dele antes mesmo de ver o reflexo na água da fonte, e saltou para o lado, fazendo Batman socar o ar e desequilibrar-se por um instante.

Drake notou que era a sua chance.

Saltou sobre a fonte, agarrando-se ao anjo que cuspia água sacramente, e girou, pegando impulso e acertando em cheio o queixo de Batman com os dois pés.

Drake sempre sonhara, como vários pupilos, em finalmente derrotar o seu mentor, simbolizando sua evolução total.

Tim imediatamente correu de volta para o prédio, de forma que, quando Robin finalmente derrubou Batman, ele não estava lá para ver seu mentor cair.

O primeiro floco de neve da noite encontrou Bruce Wayne desacordado, e Batman destruído.

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Mansão Wayne, 03hrs

Seus olhos se entreabriram, e a claridade súbita os feriu. Tentou se movimentar inutilmente; seus braços e pernas estavam amarrados à cama. Ao seu lado, uma figura se erguia, com um olhar compadecido e uma expressão de sofrimento.

–Alfred – ele murmurou, e sua boca seca não conseguiu dizer mais nada. Sentia tremores esporádicos sacudirem-no por dentro, e uma fraqueza súbita o tomava quando estes passavam – Alfred – repetiu, após o mais longo dos minutos.

–Descanse, patrão – ele respondeu, sua voz aveludada como sempre – Esta parte será difícil – Alfred disse a ele, exatamente quando uma pontada lancinante pareceu partir sua cabeça em duas, fazendo-o rosnar de dor e angústia. – Esta parte será difícil, mas logo superaremos toda esta situação, e tudo voltará ao normal.

–A ronda… Já começou? – Balbuciou, e perdeu os sentidos novamente.

Mesmo com Bruce desacordado, Alfred tocou carinhosamente a testa do garoto no poço.

–A ronda já acabou, patrão.

Alfred desceu as escadas lentamente, porém sentia-se mais forte do que nos últimos dias. Bruce estava novamente sob seus cuidados, e sabia que, independente de quão cansado estivesse, precisava ter forças agora. Precisava içá-lo do buraco onde havia caído.

Entrou na Caverna com as luzes apagadas e, no fundo deste buraco, Tim Drake o esperava.

Ele desceu as escadas lentamente, olhando Drake com esperança e um questionamento óbvio no olhar.

Drake o olhou de volta, os olhos marejados, e balançou a cabeça em um lento e doloroso “não”.

–Santo Deus – Alfred estacou ali mesmo onde estava, seus olhos mirando Drake, mas sem realmente vê-lo.

Ficaram ali, na escuridão da Caverna, em silêncio.

–Por que você ligou para mim, Alfred?

–Por Deus, Tim, isto não é hora de discutir isso – tentara cortá-lo, porém mesmo sua voz soara fraca.

–Por que você ligou para mim? – Drake insistiu, andando na direção do mordomo. – Você sabia que havia uma grande probabilidade de eu não atender, enquanto Grayson teria vindo imediatamente, e trazido a droga dos Titãs com ele – a voz de Drake era dura. – Por que você ligou para mim? Por que insistiu?

Alfred o encarou dignamente, seu olhar assumindo uma frieza inglesa.

–Você nunca poderá dizer nada a ele.

–Foi por isso? – Drake transmitia sua mágoa claramente – Você sabia a que ponto as coisas podiam chegar, e você precisava de alguém com… O quê? Uma fibra moral mais fina? Você me chamou porque sabia que Grayson nunca compactuaria com isso?

Alfred ficou em silêncio por alguns instantes.

–Não fará nenhum bem contar a ele o que aconteceu.

–Alfred, Bruce…

–O que está feito, está feito.

–…matou uma inocente!

A frase de Drake rasgou o ar como um chicote, e Alfred sentiu-se como esbofeteado. Engoliu em seco, sentindo todo o peso daquelas palavras, e pareceu que o mundo havia sido posto sobre seus ombros.

Mas havia uma decisão a tomar.

–O que está feito – repetiu pausadamente -, está feito.

A expressão de Drake traiu sua surpresa – e então seu nojo.

–Quem é você?

–Eu sou a única família que ele tem! – Alfred esbravejou, fazendo isso pela primeira vez em décadas.

Drake sustentou o olhar do mordomo por mais alguns segundos antes de desviá-lo para a parede oposta da Caverna, onde diversos uniformes, inclusive seu próprio uniforme antigo de Robin, estavam pendurados e preservados em cápsulas de vidro.

–Então você o conhece – ele disse em um tom calmo. – E sabe o que deve fazer.

Drake então se virou e saiu da Caverna, sem olhar para trás, deixando Alfred mergulhado em escuridão.

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Subúrbio de Gotham, 06hrs

Lonnie Machin assistia ao amanhecer preguiçoso e atrasado sobre Gotham City no horizonte. A cidade parecia cristalizada; uma camada de névoa se interpunha entre o sol e os olhos, criando um aspecto vítreo, e as ruas estavam cobertas por uma camada considerável de neve fofa e nova.

Não conseguia dormir de pura ansiedade. Amanhã seria o aniversário de morte daquele psicopata do Coringa e, na segunda-feira, tudo começaria. Seria o fim da Batmancracia e o início de uma nova era de Gotham.

Mas por que parar em Gotham? Aquele maníaco de cueca vermelha por cima da calça estava estabelecendo sua própria ditadura logo ali, em Metropolis, e Central City estava sob uma situação parecida com o Ligeirinho deles.

Quanto mais pensava, mais Lonnie percebia que tudo aquilo seria só o começo.

O sol, mesmo entre nuvens, despertava como um imperador em meio aos seus distantes súditos, e Lonnie sentiu como se a luz que finalmente banhava Gotham emanasse dele, afastando as sombras da cidade.

Afastando as sombras dele mesmo.

A memória o atraiu, e sentiu a escuridão assomar em si.

E, pela primeira em muito tempo, ele permitiu que elas se aproximassem.

Era como se a existência da luz que emanava dele não execrasse as sombras, mas simplesmente as colocassem sobre seu controle. Afinal, não precisava que o mal fosse extirpado; precisava que o mal fosse dominado. E ele estava totalmente no controle agora.

Caminhou até seu porão, através de um alçapão sob o carpete da cozinha, acessando um lugar úmido e ainda mais frio que o exterior, abaixo do nível da casa. Um ar viciado e podre o atingiu, porém ele não se assombrou; nada mais natural depois de tantos anos fechado.

Era um cômodo largo, espaçoso e circular, totalmente vazio, a não ser por uma pequena e velhíssima caixa comprida e retangular de madeira, que estava aberta. Dentro da caixa, uma roupa vermelha e um grande A em seu peito; ao lado da roupa, uma foice de cabo médio e lâmina longa repousava, próximo à uma máscara dourada fosca. A lâmina estava coberta de sangue, porém envolvida em plástico, e completava o conjunto macabro.

Lonnie se ajoelhou ao lado da caixa, tocando a lâmina com carinho e saudades, um sorriso escapando em seus lábios.

–A hora dele vai chegar, mamãe – ele murmurou, sua voz trêmula com emoções. – Ele é o peixe grande. A hora dele vai chegar, sim, de uma forma… – Acariciou a lâmina – ou de outra.

Não que fosse chegar àquele ponto. Não seria necessário, não com tudo correndo de acordo com o planejado.

O fato é que ele jurara não se curvar à ditadura do Batman, e realmente nunca o faria. Odiava o caos; a ordem era sempre bela. Acreditava, porém, que, para derrubar o poder falho e chegar à ordem perfeita, às vezes se faz necessário o caos completo.

Às vezes, para alcançar o pleno governo, é preciso…

Anarquia.

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