Dia 7

Tique-taque.

O espaço era enorme e escuro, como o palco de um grande teatro. Ratos corriam pela madeira oca, fazendo ruídos amedrontadores no escuro absoluto do local.

Tique-taque.

Uma vitrola velha, jogada a um canto, tocava uma canção antiga. O disco estava arranhando, e a agulha saltava com frequência, emprestando à voz já afetada da cantora um padrão totalmente irregular e perturbador. A vitrola, em sua idade apodrecida, tiquetaqueava de maneira insistente.

Tique-taque.

O ar cheirava a mofo, e todo o teto e os cantos do lugar, se pudessem ser vistos, justificariam o cheiro pungente que permeava cada centímetro. Havia também um cheiro de queimado que circulava como um rodamoinho vindo do inferno.

Tique-taque.

Aquele ambiente era totalmente asqueroso e odiável.

Tique-taque.

Ele gostava.

Em uma poltrona velha carcomida por ácaros e pelo tempo, ele sorria. Seu corpo estava esparramado, com as pernas jogadas por cima do braço da poltrona, sua coluna numa posição impensável, embora ele nem parecesse perceber o desconforto. Rodava uma adaga em sua mão com destreza, desatento, rindo sozinho, quando um rato se aproximou.

–Olá, amiguinho – murmurou, sua voz sem um pingo de simpatia. – Como você está?

O bicho guinchou, como fazia antes, e estacou onde estava.

–Tem sido um ótimo dia, e eu tenho estado extremamente feliz, sabia? Hoje é meu sétimo dia, e hoje eu descanso. Na verdade, é o sétimo dia do sétimo ano. Cabalístico, de fato! – Deu uma risadinha, batucou o dedo no chão, chamando a atenção do rato – Tenho esperado por um longo tempo neste lugar, e cheguei a pensar que tudo estava perdido… – Ele pausou – Mentira, nunca cogitei isso. Afinal, eu nunca quebro os brinquedos com os quais eu brinco – ele soltou um risinho estranho, do fundo da garganta, e prosseguiu. – Ok, talvez eu os quebre às vezes; matarei minhas saudades de Joanne Kerman em breve – aquela alma devotada e de boca macia. De qualquer forma, em um todo, o circo pegou fogo de uma forma muito interessante.

O rato continuou cheirando o redor, como se decidisse se havia perigo ou não através do cheiro. Aproximou-se vagarosa e curiosamente da mão que lhe provocava.

–Às vezes, querido roedor, as coisas saem melhor do que o planejado. Às vezes você dá um xeque no rei e acaba convertendo um peão em uma rainha no processo. – Ele coçou o queixo – Eu não me incomodaria de ser uma rainha. Passaria o dia inteiro gritando “CORTEM-LHE AS CABEÇAS!!!”, somente pelo bem da literatura mundial, e de algumas cabeças cortadas, HaHaHaHaHaHa!!!

Batucou os dedos no chão, e o animalzinho inocente tocou-os com o focinho.

–De qualquer forma, mesmo tendo alguns contratempos e elementos extrínsecos participando da dinâmica, essa semana foi o jogo de Tetris mais fácil da História, veja só. – Outra risadinha lhe escapou – Quando descem as peças certas nas horas certas, você nem precisa movimentá-las. Somente prepare os cenários, arrume as peças em suas posições iniciais e deixe-as causarem seus próprios estragos. Somente deixe-as… – Ele acariciou a cabeça do animal – Caírem.

O roedor já se sentia à vontade, esfregando-se na mão dele.

–O fato, ó pequeno rato que não voa que eu não gosto tanto assim, é que toda galinha que é alimentada, toda vaca que pasta, todo porco que é engordado é criado se deixa crescer por um motivo.

O pequeno rato olhou para cima, para a face rasgada e distorcida do Coringa, sem reconhecer o maníaco por trás da maquiagem e a sede de caos por trás do sorriso.

–Nós deixamos algumas pessoas crescerem, ratinho, pelo mesmo motivo. – Ele disse, levantado a cabeça do animal – Para abate.

A adaga cruzou o ar com uma velocidade estonteante, atravessando o crânio antes mesmo do rato perceber o que acontecia.

Ali, no palco, com uma adaga ensanguentada fincada no chão, uma risada doentia e demoníaca empesteou a noite.

Chegava o dia do Coringa.